quinta-feira, 23 de março de 2017

Inspiração

Um dia não há nada para escrever, tudo parece chato e monótono, nada vale a pena ser passado para palavras, a inspiração adormeceu por tempo indeterminado e sem causa conhecida ou compreensível, às vezes chega a parecer que partiu para sempre. No dia seguinte o mundo inteiro é conjugável, as ideias, os temas e as frases surgem à velocidade da luz, tanto que é difícil conseguir captar tudo o que acontece. Escrever é tão natural como respirar e não há nada que não mereça ser contado e partilhado, a vida é descritível. Adormecer rascunho, acordar poesia.

quarta-feira, 22 de março de 2017

Que orgulho meus senhores, que orgulho

No fim de semana passado pedalei de calções pela terceira ou quarta vez este ano. Reparei, no domingo à tarde, que a marca do sol já se nota nas minhas pernas, mesmo de meias opacas. Ainda lá estava um tom moreno do verão passado e foi só sair a pedalar ao sol para acentuar as habituais marcas a meio das pernas. Que feio, pensarão vocês, que horror, dirá quem vir. Como é que consegues andar assim Loira? Perguntarão todos. Que lindas, digo eu, das marcas que me definem e que fazem parte daquilo que sou, daquilo que gosto e daquilo que faço. Que orgulho meus senhores, que orgulho, das marcas do sol na pele, dos arranhões do mato, dos picos entranhados na carne, das nódoas negras, das feridas e das cicatrizes. Que orgulho de ser o que sou, que é mais ou menos como quem diz, mais uma merda de um verão inteiro a usar calças. 

sexta-feira, 17 de março de 2017

Paz à sua alma

Afoguei-o. Desde 2010 que o meu passatempo preferido é afogar telemóveis, o primeiro afoguei-o na minha primeira grande viagem, debaixo de uma tempestade descomunal e todos os outros que se seguiram tiveram o mesmo fim. Afogaram em viagens, em maratonas, em passeios, afogaram por excesso de vida ou de humidades contínuas, afogaram em lama, em sujidade, afogaram em aventura. Matei-os, um por um, de forma radical. Até sábado passado, dia em que afoguei mais um, o primeiro a morrer sem fazer jus à reputação da dona, afogado enquanto eu lavava a loiça, como se em vez de eu ser a Loira das bicicletas, a Loira das montanhas, a Loira das aventuras, fosse uma simples dona de casa. Antes lhe tivesse acontecido uma morte de merda, afogado na sanita, sempre morria com uma história para contar. Afoguei-o, avé, salvaram-se os contactos e as fotos, que descanse em paz e que o actual morra com honra e glória, porque é assim que têm de morrer os que vivem intensamente. 

terça-feira, 14 de março de 2017

Oh não... vai começar tudo outra vez...

A mistura improvável que eu sonhei um dia e na qual ninguém acreditava. Cada pormenor pensado ao pormenor. A ansiedade da espera e a espera por saber se terceiros conseguiram compreender e transformar exactamente aquilo que eu imaginei e quero. Os planos, as ideias, as imagens, a imaginação, os sonhos, a contagem do tempo. Oh não... vai começar tudo outra vez. Fujam todos, nos próximos tempos vou ficar insuportável, ainda mais insuportável.

domingo, 12 de março de 2017

Reler-me #18

Loira também quer dar dicas de maquilhagem e beleza à blogosfera nacional

Acordem bem cedo e coloquem creme e protector solar, ao fazê-lo dividam o vosso rosto a meio, a parte superior aos olhos e a parte inferior, na parte inferior podem colocar o creme e o protector à vossa vontade, na parte superior não se atrevam sequer a tocar, têm de sair de casa com essa zona do rosto completamente limpa, a não ser que queiram que aquela porcaria vos entre toda para os olhos ao primeiro sinal de suor. Não há necessidade de se pentearem, o capacete é fabuloso para as desgrenhadas. A demonstração que vos trago hoje demora exactamente 50 km de chuva e lama a ser conseguida, mas o resultado final é fantástico, como poderão comprovar mais à frente. Durante o processo o vosso rosto será sujeito a uma esfoliação à base de pingos de chuva fria com lavagem e massagem intensivas e gotas enviadas primeiro na perpendicular e depois na oblíqua, a uma média de 20 km por hora, com pepitas de areias naturais oriundas de uma praia de mar revolto e frio no norte de Portugal, salpicos de pedras e mistura de uma substância granular de alcatrão essencial. Aplicação de uma máscara de lama proveniente das montanhas e dos trilhos mais espectaculares, com extracto de bosta e uma pequena amostra de argila. Restauração corporal intensiva com três linhas de tratamento à escolha: mato, silvas e urtigas. E ainda, para o vosso cabelo, uma máscara reconstrutora e uma ampola de tratamento instantâneo à base de sedimento terroso do solo, mais vulgarmente conhecido como lama. Completamente grátis, completamente natural, resultado garantido e comprovado.


Fevereiro de 2016

Reler-me #17

Tragédia matinal

Estão a ver quando, enquanto separam a roupa acabada de lavar e secar, percebem que uma das meias não tem par? Quando pensam, e pensam, e voltam a pensar e têm a certeza absoluta que colocaram as duas meias na máquina de lavar no dia anterior? Quando voltam atrás para perceber se a meia não jaz no chão da vossa casa, algures entre o local da máquina de secar e do quarto que usam para separar a roupa? Quando vão a correr, e já em pânico, ao balde da roupa suja para perceber se a certeza que tinham de a ter colocado na máquina, era afinal uma incerteza? Quando voltam às máquinas de lavar e secar a roupa na esperança de ela ter ficado esquecida algures nas profundezas daqueles espaços? Quando vão a correr para junto da roupa já dobrada e separada e voltam a desdobrar e a juntar a roupa, e voam peças, na esperança que a meia esteja no meio de um lençol dobrado ou dentro de uma perna de calças que esperam para ser engomadas? Nunca vos aconteceu tal coisa? Então parabéns, estão no bom caminho para se tornarem umas perfeitas Bloggers de sucesso. Já vos aconteceu isso montes de vezes e não percebem onde está o drama? Então vão lá às vossas vidas que este post não é para vocês. Percebem-me perfeitamente? Compreendem a tortura, o medo, o pânico, a aflição, a falta de ar, a taquicardia, os suores frios, as tonturas, o tormento que é não saber de uma meia? Então imaginem tudo isso a dobrar, a triplicar, a quadruplicar. Imaginem o que é para mim não saber onde caralho se enfiou uma das minhas fashion meias das pedaladas. Uma tragédia, é o que vos digo, uma tragédia matinal, foi o que me aconteceu.

Fevereiro de 2016

sábado, 11 de março de 2017

Reler-me #16

Assobiar para o alto

Uma das coisas que adoro fazer quando começam a aparecer os primeiros sinais da Primavera, ou quando, como é hoje o caso, finalmente aparece o sol depois de tantos dias de chuva, é de assobiar para o alto. No meio da montanha, num jardim, ou num meio mais rural, basta assobiar uns segundos para que logo os pássaros nos respondam com cânticos alegres e radiantes. Aprendi a fazê-lo quando assobiava ao meu pai e ele me respondia de longe da mesma forma, certo dia não era o meu pai a responder, mas um pássaro que aprendeu a imitar-nos e quase sempre nos conseguia enganar. Eu e o meu pai continuamos a assobiar um ao outro e a fazer muitas vezes cantar os pássaros. Hoje está sol, os pássaros responderam-me, cantaram para mim, para nós.

Fevereiro de 2016

Reler-me #15

Porque na vida há coisas que não se explicam

Pedem-me frequentemente para explicar esta minha loucura. Afirmam que não entendem tanto entusiasmo, perguntam-me porquê e esperam que eu lhes explique algo inexplicável. Quem nunca andou de bicicleta não pode perceber o que é chegar ao topo de uma montanha que de cá de baixo nos parece inatingível, não pode perceber o que fazer uma descida técnica sem desmontar, não pode perceber o que se sente quando pedalamos cada vez mais km, não pode perceber a sensação de levar com a chuva e a lama no rosto e no corpo, não pode perceber o que é resistir ao calor, ao frio, à sede, à fome e ainda assim sentir-se feliz, não pode perceber o que se sente quando se pára lá em cima na montanha para olhar para a paisagem, não pode perceber quão grandes e quão pequenos nos conseguimos sentir naquele instante. Quem nunca pedalou não pode perceber o que se sente a chegar à meta, não pode perceber o companheirismo e a amizade que se ganha com os que nos acompanham, não pode perceber o que vale ultrapassar uma subida e divertir-se numa descida. Quem nunca foi para o monte não pode perceber o que é descobrir locais que de outra forma nunca poderíamos descobrir, não pode perceber a sensação de conseguir estar lá em cima só com a nossa energia. Quem nunca andou de bicicleta nunca viveu aqueles instantes em que entramos numa curva sem equilíbrio, em que nos vimos com a roda de trás no ar, em que o pneu derrapa e nós perdemos o controlo, em que queremos desencaixar um pedal e não conseguimos, em que sabemos que vamos cair e já não podemos fazer nada para o evitar. Quem nunca andou de bicicleta não pode perceber o que é fazer uma viagem de mochila às costas em autonomia total. Quem nunca pedalou não pode perceber o que é parar para descansar. Não perguntem mais, experimentem ou calem-se, porque na vida há coisas que não se explicam, a paixão é uma delas.

Fevereiro de 2015

sexta-feira, 10 de março de 2017

Estou tão fodida...

Não sei se foi amor à primeira vista (ai... suspiro) ou se uma paixão incontrolável (ai... suspiro), não percebo nada disto, de dar nomes aos sentimentos (ai... suspiro). Não consigo deixar de pensar nela (ai... suspiro), não consigo deixar de a imaginar comigo (ai... suspiro) e as coisas que podemos fazer juntas (ai... suspiro), a presença dela é constante desde o momento em que a vi (ai... suspiro), o meu coração palpita (ai... suspiro) e o meu corpo pede por ela a todo o instante (ai... suspiro), juro que quero negar todos os sintomas (ai... suspiro) e que estou a fazer de conta que sou super calma e ponderada (ai... suspiro), mas imaginar-me com ela é a melhor sensação do mundo (ai... suspiro), tudo nela é perfeito (ai... suspiro) e se encaixa em mim e na minha vida (ai... suspiro), não me consigo imaginar com outra (ai... suspiro) e imaginá-la com outra pessoa que não eu é insuportável para mim (ai... suspiro). Já só consigo pensar em nós, juntas, felizes (ai... suspiro) e no futuro risonho que temos pela frente (ai... suspiro), já só consigo sonhar com ela, com nós (ai... suspiro). Quero-a para mim, estou apaixonada, desejo-a, amo-a, não quero sequer imaginar viver sem ela (ai... suspiro). Estou tão fodida. E o pior disto tudo é ter de admitir que no fundo... bem lá no fundo... sou uma pindérica do pior (ai suspiro). Segurem-me, segurem-me porque quando me apaixono não sobra pedra sobre pedra. Merda. 

quarta-feira, 8 de março de 2017

Um post quase erótico

Reuni, um dia destes, as minhas miúdas lá em casa, uma espécie de ladies night com festa de aniversário à mistura, muita comida, muita bebida e uma diversão extra, ideia fantástica de uma delas. Recebemos durante umas horas uma espécie de formação sobre brinquedos sexuais, explicações, truques, formas de usar, de fazer, de acontecer. Todas adoramos aquele bocadinho e todas ficamos bastantes entusiasmadas, eu talvez um pouco mais que as outras, ou porque era a aniversariante, ou porque gosto mesmo daquele vinho tinto maduro alentejano, o certo é que no final da sessão eu encomendei tudo o que me inspirou e mais alguma coisa, muita coisa, diga-se. A noite foi falada por nós tantas vezes que o arrebatamento e a ansiedade foi crescendo enquanto esperávamos famintas de novidades que as nossas encomendas chegassem. E chegaram, chegaram esta semana, lancem os foguetes, toquem os tambores. Eu? Eu já não me lembrava do que caralho encomendei. Eu? Abri a encomenda e juro que não faço a mais pequena ideia de para que serve o quê. Eu? Acho mesmo que me vou divertir muito nos próximos tempos, sim... a tentar perceber o que é e para que serve tudo o que encomendei. Desejem-me sorte. 

terça-feira, 7 de março de 2017

Os meus livros #11 - Suite Francesa (Irène Némirovsky)

SINOPSE

Suite Francesa é, ao mesmo tempo, um brilhante romance sobre a guerra e um documento histórico extraordinário. Uma evocação inigualável do êxodo de Paris após a invasão alemã de 1940 e da vida sob a ocupação nazi, escrito pela ilustre romancista francesa Irène Némirovsky ao mesmo tempo que os acontecimentos se desenrolavam à sua volta. Embora tenha concebido o livro como uma obra em cinco partes (com base na estrutura da Quinta Sinfonia de Beethoven), Irène Némirovsky só conseguiu escrever as duas primeiras partes, Tempestade em Junho e Dolce, antes de ser presa, em Julho de 1942. Morreu em Auschwitz no mês seguinte. O manuscrito foi salvo pela sua filha Denise; foi apenas décadas depois que Denise descobriu que o que tinha imaginado ser o diário da mãe era na verdade uma inestimável obra de arte, que viria a ser aclamada pelos críticos europeus como um Guerra e Paz da Segunda Guerra Mundial. Romance assombroso, intimista, implacável, desvelando com uma lucidez extraordinária a alma de cada francês durante a Ocupação (enriquecido e completado pelas notas e pela correspondência de Irène Némirovsky), Suite Francesa ressuscita, numa escrita brilhante e intuitiva, um momento decisivo e marcante da nossa memória colectiva.



Não há muito a dizer sobre Suite Francesa, para além de que é extraordinário. A prova de que o tema nunca se esgota e há sempre páginas prontas a surpreenderem.

Reler-me #14

Por enquanto está tudo controlado, corro à noite e acho que as pessoas que se cruzam comigo não têm uma mente tão porca como a minha

Três dias depois da minha primeira corrida (de todo o sempre, amém), como já conseguia mexer-me mais ou menos, já quase conseguia caminhar sem mancar, já conseguia sentar-me sem parecer uma contorcionista aleijada e até já conseguia apanhar objectos do chão só com dois gritinhos e três gemidos, achei que estava pronta para outra. Ontem, começar foi mais difícil, uma vez que as minhas pernas ainda doíam, mas a corrida foi bem mais fácil. Os mesmos km, o mesmo trajecto, mas desta vez não me senti tão estúpida como anteriormente, a minha sombra já não parecia tão desengonçada, a minha passada estava mais segura e o movimento dos meus braços já começa a fazer sentido. Em vez de olhar para o chão e contar mentalmente e desesperadamente os metros que ainda me faltavam para terminar a tortura já consegui erguer a cabeça e ver aquilo que me rodeia. Terminei cansada mas não mais morta que viva. A certa altura, por breves instantes, cheguei mesmo a pensar que talvez um dia eu consiga gostar disto, talvez um dia o interminável horizonte que se estende até à meta já não me assuste, talvez um dia eu consiga sentir-me bem e talvez um dia eu consiga correr sem estar constantemente a pensar na respiração. Nesse dia, no dia em que respirar for tão fácil e tão natural como respirar, talvez eu possa mesmo correr o mundo livremente, linda, loira e sem fazer a boca de broche que faço agora.

Fevereiro de 2015

segunda-feira, 6 de março de 2017

Loira vai à neve

Desde que comecei a pedalar que andava a dizer a meio mundo que o meu sonho era  pedalar na neve, imaginava-me no topo da montanha, rodeada de branco, com um grande sorriso no rosto e a tirar fotos incríveis com a bicicleta mais gira do mundo, a minha, claro. Pedalar trouxe-me isso, pequenos sonhos que se tornam grandes conquistas.
Sábado partimos para mais uma aventura ao pedal e depois de percorrermos vários quilómetros de trilhos não cicláveis, se fazermos subidas e descidas com a bicicleta às costas, depois de passarmos rios e cascatas, pedras, raízes, lama e de estarmos com os pés completamente molhados e gelados percebemos que a neve já não estava lá ao longe no topo da montanha, que nós já estávamos na neve e que o topo da montanha branca era o nosso destino. Pedalar era praticamente impossível na maior parte do trajecto e a única alternativa era subir todos aqueles quilómetros a arrastar a bicicleta connosco, ou a suportar o seu peso às costas, com os pés completamente congelados num calçado que não é próprio de caminhar. Partes do percurso tornavam-se desesperantes e num momento em que me apeteceu animar uma das minhas amigas disse-lhe isso mesmo, que sempre tive o sonho de pedalar na neve, ela perguntou como é que eu me estava a sentir e eu disse-lhe que estava feliz, toda fodida, mas feliz. Alcançamos o topo da montanha e fizemos a descida ainda com neve até à nossa meta. Eu olhei para trás e vi-me no topo da montanha, rodeada de branco, com um grande sorriso no rosto e a tirar fotos incríveis com a bicicleta mais gira do mundo, a minha, claro. Tive frio, tive dores, caí, mas o fim compensou, compensa sempre, porque mesmo quando estou toda fodida, continuo feliz. Os pés? Esses ainda doem, mas isso é só um pequeno pormenor, dos tais pequenos sonhos que se tornam grandes conquistas.

Loira, o que vês do teu selim?