quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Maria Alice

Um dia escreverei sobre o pai da Alice, mas ainda não será hoje. Maria Alice chegou a minha casa e à minha vida no Natal passado, chorava e estava abandonada e sozinha no mundo dela, entrou, completamente selvagem, independente, com vários traumas e sem confiança para dar ou receber mimos e carinhos. Maria Alice era minúscula, completamente preta e vivia como se o mundo inteiro a quisesse magoar, mas eu acredito que desde o primeiro minuto Maria Alice sabia que ali estava segura. Foi difícil conquistar Maria Alice, mas se eu, que sou feita de mimo, não conseguisse, ninguém conseguiria. Maria Alice foi, lentamente pedindo e retribuindo mimos, até que agora os exige diariamente, foi aprendendo a interagir com as pessoas, apesar de ainda desconfiar do primeiro contacto, Maria Alice foi reclamando cada vez menos do colo, foi pedindo cada vez mais atenção, foi dormindo cada vez mais perto, até que agora acordo algumas noites com ela a dormir literalmente em cima de mim. Maria Alice foi aprendendo cada vez mais sobre o carinho, até que agora, depois de uma ausência minha de quase duas semanas Maria Alice aprendeu até a dar abraços, enrosca e agarra-me com as patinhas, encosta o focinho e aperta com todas as suas forças. Maria Alice chegou selvagem e independente, até aprender mais sobre o amor.

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Maria Julieta

Fará, daqui a uns dias, um ano que Maria Julieta chegou à minha vida e à minha casa. Pesava seiscentas gramas de amor e a partir daquele dia nunca mais eu consegui ficar sozinha porque Maria Julieta estava sempre atrás de mim, em cima de mim, ao meu lado, a observar-me, não me largando sequer um minuto. Uns meses depois chegaria Maria Alice para duplicar tudo isto, mas é de Maria Julieta que fala este post. Maria Julieta que cresceu ligeiramente, muito, imenso. Maria Julieta que engordou um pouquinho, bastante, verdadeiramente. Maria Julieta que está... como direi... gordita, larga de ossos, vasta... obesa mesmo. Maria Julieta que ocupa cada vez mais espaço. Maria Julieta que pesa agora mais de cinco quilos. Maria Julieta que durante a minha ausência nas férias foi engordada trezentas gramas, mais trezentas para a Maria Alice, porque a minha melhor amiga pensava, de certeza, que no regresso o destino delas seria o forno. Maria Julieta a quem compro patê light e que quando corre abana uma orgulhosa e imensa banha na barriga. Maria Julieta que eu tenho a certeza que quando deixei na clínica para esterilizar em vez disso foi violada e Maria Julieta que eu tenho a certeza, transporta no mínimo quinze gatinhos naquela pança. Maria Julieta, que me traz o rato quando o atiro, que me leva prendas à cama e que tem muitos quilos de amor para dar.

terça-feira, 11 de setembro de 2018

O carteiro toca sempre MUITAS vezes

Loira, ansiosamente à espera de: A vida em surdina de David Lodge, Nunca me deixes de Kazuo Ishiguro, A sociedade literária da tarde da casca de batata de Mary Ann Shaffer e Annie Barrows, As avenidas periféricas de Patrick Modiano, Pelos céus da china de C. Hope Flinchbaugh, A lei do amor de Laura Esquível, Como Deus manda de Niccolò Ammaniti, Um grito de amor desde o centro do mundo de Kyoichi Katayama e Os litigantes de John Grisham.

domingo, 9 de setembro de 2018

Os meus livros #49 - O meu nome é Lucy Barton (Elizabeth Strout)






Sinopse



Mais do que uma história de mãe e filha, este é um romance sobre as distâncias por vezes insuperáveis entre pessoas que deveriam estar próximas, sobre o peso dos não-ditos no seio das relações mais íntimas e sobre a solidão que todos sentimos alguma vez na vida. A entrelaçar esta narrativa está a voz da própria Lucy: tão observadora, sábia e profundamente humana como a da escritora que lhe dá forma. 







Este livro é sobre amor, é sobre a falta de amor, é sobre a necessidade de ser amada quando se ama toda a gente. Surpreende pela positiva.

sábado, 8 de setembro de 2018

Os meus livros #48 - Sonata a Gustav (Rose Tremain)

Sinopse


«E, a toda aquela gente assustada, Gustav sussurrava ocasionalmente: "Têm de dominar as emoções."»

Gustav Perle nasce e cresce numa pequena cidade da Suíça, onde os horrores da Segunda Guerra Mundial são apenas ecos de um mundo distante, que parece não perturbar a paz neutra que abraça esse país. No entanto, a infância de Gustav, marcada pela traumática morte do seu pai, é também acompanhada por uma constante e inexplicável severidade da mãe, especialmente no que toca a sua amizade com Anton Zwiebel, um menino judeu da sua escola, pianista excecional atormentado pelo pânico e pressão de tocar em público, um menino que só na companhia de Gustav consegue encontrar segurança para poder sonhar e enfrentar o pânico de tocar perante o público.

Os anos passam e Anton está prestes a tornar-se um compositor famoso, enquanto Gustav finalmente decide apurar a verdade sobre a morte do seu pai, descobrindo um mundo familiar que até aí desconhecia.


Críticas de imprensa

«Tremain tem o traço de um Grande Mestre e consegue usá-lo de forma brilhante. Glorioso.»
The Times




Completamente surpreendente e encantador. Este livro deveria ser de leitura obrigatória.

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Sobreviver aos tempos modernos

Passaram três meses desde que o meu telemóvel deu um triplo salto mortal encarpado e o ecrã se finou, estava eu de partida para uma viagem e o raio do telemóvel faz um bocado de falta nessas alturas, dois cliques de um amigo que sabe o que faz e o ecrã ficou a funcionar em miniatura, num cantinho do enorme telemóvel, o que é muito prático, como podem imaginar. Resolveria o problema no regresso, parti em viagem e não voltei sem antes mandar o meu telemóvel a um abismo, voltou a cair de tão alto que quase morreu de fome antes de se estatelar no chão. Pensei que tivesse partido deste mundo, mas afinal curou-se, o ecrã ficou a funcionar perfeitamente e eu estive quase para registar a patente. Quer curar o seu ecrã de uma queda? Pague-me cem euros que eu atiro-o ao chão e resolvo o problema.
Curou-se, portanto, o meu querido ecrã, até à semana passada, altura em que deixou de funcionar em determinadas zonas e por vezes piscava tanto que mais parecia uma árvore de Natal, voltei ao meu amigo que sabe o que faz e deixei-lhe o telemóvel para obter um diagnóstico ou trazer a certidão de óbito. Ainda tem salvação, em breve terá um ecrã novinho e pronto para dar mais meia dúzia de cambalhotas até ficar alcatroado novamente. Loira, a assassina de telemóveis. Como estava a dizer, deixei-lhe o telemóvel e fui às compras, dois supermercados, buscar a minha bicicleta à oficina e deixar a mesma em casa, ainda tive tempo de ligar a máquina da roupa e dar mimos às gatas. Fui buscar o telemóvel duas horas depois e SOLTEM OS FOGUETES, RUFEM OS TAMBORES, sobrevivi todo este tempo sem chamadas nem sms, sem câmara fotográfica, sem internet no geral e facebook, mail, instagram, messenger, whatapp, blogger, strava, garmin connect, meteorologia, netbank em particular, sobrevivi todo este tempo sem agenda, sem calendário, sem calculadora e não fosse o cardiofrequencímetro entretanto já ter braceletes de muitas e variadas cores até sem horas eu teria sobrevivido.
Sobrevivi portanto a duas horas sem redes sociais, sozinha no mundo, sem forma de seja quem for me contactar ou de eu contactar alguém, sem forma de obter ou dar notícias, em autonomia e liberdade total, não sofri de palpitações, nem de tremores, não tive suores frios e ainda concordei, de livre e espontânea vontade voltar a ficar sem o meu telemóvel novamente, por um período de tempo superior e sem entrar em pânico nem sequer pensar em suicídio.
Acreditemos então que ainda é possível salvar a humanidade, que ainda é possível sobreviver aos tempos modernos.

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Regresso ao mundo real

Acabaram os dias de dormir sem despertador para acordar, os dias de pedalar à beira mar, os dias de comer porcarias sem pensar no assunto, os dias de beber cerveja fresca numa esplanada com cheiro a praia, os dias com tempo para ler mais e mais. Estou de regresso ao mundo real.

terça-feira, 4 de setembro de 2018

A casa dos livros

Eram tantos livros que não havia estantes suficientes para os suportar, faltava espaço e organização, faltava estrutura para sustentar o peso desta paixão. Agora há estantes, esta casa está mais bonita, esta é a casa dos livros, esta casa tem espaço para os receber, porque rapidamente me parecem poucos, porque tenho espaços para preencher, porque tenho o meu lugar no mundo. Esta é a casa dos livros, preciso de livros, muitos livros, tantos que precisarei de mais estantes, porque só a falta de estantes me faz sentido.

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Os meus livros #47 - Os Vadios (Emily Bitto)

Sinopse

No seu primeiro dia de aulas numa nova escola, Lily travaamizade com Eva, uma das filhas do infame artista avant-garde Evan Trentham. Ele e a sua esposa, Helena, tentam escapar ao conservadorismo sufocante da Austrália dos anos 1930 convidando outros artistas, cujo ideal e ambição se coadunam com os seus, para viver e trabalhar em sua casa. À medida que a amizade de Lily e Eva cresce, a primeira deixar-se-á seduzir pela excentricidade desta residência de artistas, ansiando por se integrar e pertencer verdadeiramente a uma família improvisada. Mas há sempre um preço a pagar pelo sonho e, falhada a utopia, serão as filhas de Evan que mais sofrerão com as escolhas dos pais.

Emily Bitto oferece-nos em Os Vadios, o seu romance de estreia, uma narrativa comovente acerca da amizade insuperável entre duas raparigas com uma cumplicidade muito própria - de um lado a voracidade e irreverência de Eva, do outro o torpor e uma certa rigidez de Lily - ambas como que alimentando-se uma da outra. Uma fascinante história de ambição, sacrifício e lealdades comprometidas.


Críticas de imprensa

«Através da narrativa de uma pequena comunidade artística há mais de oitenta anos, Bitto centra o seu olhar na disfuncionalidade de uma família e no impacto da perda. Esta história de um modo de vida boémio é sobre mais do que apenas champanhe e cigarros; os laços fortes, lutas morais e consequências devastadoras vividas pelas suas personagens femininas centrais dão a Os Vadios a sua substância.»
The Guardian

«Bitto adopta um ritmo calmo, sem pressa, na sua escrita, que combina com a época em questão à medida que explora, com uma paixão serena, tanto o revés da vida criativa na família, quanto a própria definição de família.»
Kirkus Reviews

«Um primeiro romance notável […]. As cenas que envolvem a comuna de Trentham são vividamente escritas por Bitto, quase pictóricas […]. Com método, um sentimento de catástrofe iminente é tecido na narrativa, fazendo o desfecho parecer inevitável, dado os egos dos artistas e as suas deliberadas perturbações.»
The New York Times

«Se pegarmos em qualquer frase de Os Vadios, podemos admirar a pura arte da sua melodia e composição… É uma leitura extremamente prazenteira.»
Bookseller + Publisher

«Pleno de exuberância, detalhe hipnotizante e uma compreensão profunda da amizade entre jovens raparigas.»
The New Yorker 




Tão bom que depois da sinopse e das críticas de imprensa não tenho mais nada a dizer. Absolutamente fantástico.

terça-feira, 14 de agosto de 2018

Os meus livros #46 - Louca por Compras (Sophie Kinsella)






Sinopse 



Quando as coisas se descontrolam - os descontrolados vão às compras. Rebecca Bloomwood é louca por compras, está enterrada de dívidas até aos ossos e passa o tempo a tentar escapar ao seu gerente de conta. A sua única esperança é tentar ganhar mais e gastar menos. O seu único consolo é comprar alguma coisa - só mais uma coisinha…







Alguns anos depois de ver o filme e depois da minha amiga tão louca por livros como eu me dizer vezes sem conta que era obrigatório ler este livro assim fiz e fartei-me de rir, além de achar surpreendente a análise sobre a mente humana que aqui, de forma leve e de fácil leitura, é feita.

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

2 anos

Parti para O Caminho de mochila às costas e sem qualquer preparação física e psicológica para tudo aquilo que aquela caminhada me traria. Levei comigo a minha melhor amiga, irmã de alma e única pessoa no mundo a quem podia dizer em voz alta aquilo que descobri em cada recanto meu, tive todo o tempo do mundo para pensar e a fuga à vida fez-me vê-la como nunca. Regressei tranquila e em paz, O Caminho mostrou-me o caminho e eu só tive que fazer aquilo que O Caminho e o meu coração me mandaram. Dei à minha vida uma nova banda sonora e enchi-a de novas imagens, cheias de cor, cheias de horizonte para percorrer. Fui ter com as minhas miúdas para um fim-de-semana muito especial e percebo ao escrever isto que já se passou muito tempo e que é urgente repetir, trouxe comigo certezas. Voei como há muito tempo não fazia e senti a verdadeira sensação de liberdade. Sentei-me sozinha no topo da montanha e percebi que era lá que me sentia em casa. Descarrilei o comboio da minha vida, atirei-me de cabeça ao abismo sem pára-quedas capaz de suportar o peso da minha loucura. Fiz os primeiros de milhões de quilómetros e subi ao pódio da vida. Tive o meu primeiro grande bloqueio de leitora e tive de reaprender a  ser eu. Fiquei sozinha e foi assim que me despedi do ano que mudou a minha vida. Voltei a ler. Comecei a reler-me. Voltei a sentir-me em casa e a ter o meu lar, doce lar. Assumi o meu amor ao mundo. Comprei a minha segunda bicicleta, passei a ter dois objectos de paixão e criei mais um blog, escrito a quatro mãos mas ainda adormecido. Comprei um carro. Adoptei a Julieta, a gata mais linda do mundo que chegou a minha casa com seiscentas gramas e já pesa quase cinco quilos. Nunca mais consegui estar sozinha. Meti um aparelho dentário e comecei a colorir o meu sorriso. Fui, fomos, adoptadas pela Alice, a gata mais linda do mundo que nos escolheu, vivemos as três agora, muito felizes. Mudei de emprego. Pelo caminho perdi muitas pessoas, foi inevitável, se não nos aceitam tal como somos é porque não nos fazem falta. Ganhei muito mais do que aquilo que perdi. Passaram dois anos, setecentos e trinta dias, pedalei milhares de quilómetros, posei para milhares de fotos e li centenas de livros, reinventei a minha imagem ao pedal, fiz três grandes viagens e vivi incontáveis aventuras. Passaram dois anos e eu apaixonei-me a cada dia, todos os dias, setecentos e trinta dias.

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Os meus livros #45 - A Carruagem dos Órfãos (Pam Jenoff)

Sinopse

Um romance poderoso sobre a amizade, tendo como pano de fundo um circo durante a Segunda Guerra Mundial. Duas mulheres extraordinárias e as suas histórias angustiantes, de sacrifício e sobrevivência. Noa, de 16 anos, fica grávida de um soldado do exército nazi e é forçada a desistir do seu bebé recém-nascido. Vive no piso superior de uma pequena estação ferroviária, a troco de limpezas... Quando descobre dezenas de crianças judias amontoadas num vagão cujo destino é um campo de concentração, ela não consegue deixar de pensar no filho que lhe foi retirado.

E, num momento que mudará a sua vida para sempre, agarra numa das crianças e foge com ela pela noite fora sob um forte nevão. Acaba por encontrar refúgio num circo alemão, mas vai ter de aprender números de trapézio para poder passar despercebida, não obstante o azedume de Astrid, a trapezista principal. a princípio rivais, Noa e Astrid em breve criam poderosos laços de afecto entre si.

Mas como a fachada que as protege se torna cada vez mais ténue, elas têm de decidir se a amizade entre ambas é suficiente para se salvarem uma à outra - ou se os segredos que guardam deitarão tudo por terra. 


Para quem gosta de ler o assunto Segunda Guerra Mundial nunca se esgota e é sempre capaz de surpreender e chocar. Mais um grande livro.