quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Formas de vida

Quando uma viagem de grupo chega ao fim há um par de pessoas que vêem as situações de uma maneira e há todos os outros. Há um par de pessoas que se gabam de num momento complicado terem sido os únicos a cumprir o trajecto traçado inicialmente, de terem percorrido os planos originais, de terem sido os únicos a conseguir cumprir o que estava planeado. Sim, assim mesmo, repetida e insistentemente, para que a ideia fique bem fincada na mente de quem os ouve. Quando uma viagem de grupo chega ao fim há um par de pessoas que só se lembra desse momento, porque para eles foi ali que conseguiram algo mais do que os outros, foi ali que foram superiores.
Quando uma viagem de grupo chega ao fim há os outros, os que olham para a situação de forma completamente diferente, sem grande atenção, só se lembram de arranjar uma solução para se manterem unidos, para chegarem todos bem e juntos, não pensam muito nisso porque para eles a forma como agiram era a única forma de agir, não havia outra alternativa, são os que seguem felizes e indiferentes sem sequer se lembrar daquilo, são os que se envergonhariam de dizer a alguém que são o tipo de pessoa que deixa ficar um amigo para trás.

Quando uma viagem de grupo chega ao fim é fácil separar formas de vida e saber quem realmente pertence ao grupo e quem está a mais.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Eu e as miúdas (imagens de um fim de semana de Loiretes)







Toda a gente sabe que eu faço o melhor bolo de chocolate do mundo

O que as pessoas não sabiam é que o meu cheesecake também é bem bom. Nem as pessoas, nem eu. Acontece que semana passada tive visitas cá em casa e como só o bolo de chocolate seria pouco e não tinha tempo para preparar o meu semifrio de bolacha resolvi fazer pela primeira vez um cheesecake, que acabou por ser um verdadeiro sucesso de tão bom que estava.
O grande problema de fazer sobremesas boas é que no final as pessoas pedem sempre a receita e a do cheesecake não me apetecia muito dar, talvez por ser uma receita com um ingrediente secreto que está há várias gerações na minha família, talvez por não querer quebrar o encanto de tão divinal sabor.
Bem, mas toda a gente também sabe que eu gosto de partilhar e depois de dormir algumas noites sobre o assunto, depois de consultar todos os elementos da minha família e pedir a devida autorização, depois de imaginar a felicidade da minha bisavó ao saber que a receita se tinha tornado famosa, resolvi dividir com vocês não só a receita como também o ingrediente secreto.
Para começar precisam de uma batedeira, de um copo medidor e de uma taça, os ingredientes principais são a manteiga, o leite e um pouco de água, dirigem-se cuidadosamente ao supermercado e compram o ingrediente secreto, estará na secção dos bolos, procurem-no atentamente, é uma caixa vermelha que diz Royal no canto superior esquerdo, e mais abaixo diz Cheesecake, acompanhado de uma bela foto. Já em casa abram a caixa atentamente e sigam as instruções que são basicamente juntar a manteiga derretida ao primeiro preparado, o leite ao segundo e a água ao terceiro, se quiserem surpreender um pouco mais em vez da forma que vem dentro da caixa utilizem uma em forma de coração, que foi exactamente aquilo que fiz.
E agora ide, ide e lambuzai-vos.

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Loira, a cara suja

Há uns tempos atrás uma pessoa que me conheceu de bicicleta e capacete e que nunca me tinha visto de outra forma não me reconheceu à primeira vista. Depois pediu desculpa e disse-me que eu sou tão linda sem a minha bicicleta e sem o capacete enfiado na cabeça que ao ver-me nem sequer lhe passou pela cabeça que fosse a mesma pessoa. Não é a primeira vez que me acontece, já aconteceu vezes sem conta.

Dias depois o meu colega de trabalho estava a comentar comigo a falta de beleza de um possível engate (coisas de gajos) e dizia-me que as fotos que a pessoa em causa publicava no facebook eram mesmo horríveis. Eu lá lhe disse que a falta de beleza não era tudo, mentira, não disse nada, eu disse-lhe é que a gaja devia ser mesmo feia porque toda a gente publica no facebook as melhores fotos que tem. Ele concordou comigo, disse-me que era verdade, toda a gente menos eu, segundo ele eu só publico fotos de cara suja.

Esta semana fui a uma aula de Cycling quase vazia, as outras pessoas ficaram numa ponta e eu fui sozinha para a outra, durante aquela hora fui só eu, a música, os meus pensamentos e o meu reflexo no espelho enquanto pedalava. Durante aquela hora olhei-me e tive orgulho em mim, senti-me bonita ainda que despenteada e suada, gostei de me ver de equipamento e com as minhas meias, achei-me uma miúda linda, como me acho sempre que estou vestida e pronta a pedalar. Durante aquela hora lembrei-me dos episódios que descrevi anteriormente e pensei que toda a gente pode achar o contrário, mas a minha essência é esta, felizmente sinto-me bem e bonita muitas vezes, quase todos os dias, mas linda mesmo sinto-me (SOU) quando estou de cara suja.



Apresento-vos A Loira. Eu.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Respondo

Subo muitas montanhas com a bicicleta às costas, já subi muitas mais, hoje em dia consigo ultrapassar em cima dela obstáculos e cumes que noutros tempos me pareciam impossíveis, mas ainda assim há muitos trilhos não cicláveis em que é necessário pegar na bicicleta e fazer um pouco de trail sem os sapatos adequados e com aquele peso extra. Arrastar monte acima uma bicicleta ou passar barreiras que à primeira vista nos parecem intransponíveis nunca é fácil e várias vezes me oferecem ajuda, recuso sempre que me é humanamente possível (um dia destes escrevo sobre isso), ganhei o hábito de pendurar o selim no ombro e seguir o meu caminho, o mais naturalmente que consigo, ainda que tenha de passar um rio, subir um penedo ou descer calhaus escorregadios do verdete. No passado domingo, numa dessas circunstâncias, voltaram a oferecer-me ajuda, voltaram a querer pegar na minha bicicleta para ser mais fácil para mim passar o buraco que nos apareceu no meio do trilho, eu agradeci, recusei como sempre e acrescentei que não se preocupassem, que a bicicleta pesa bem menos que a mala que transporto ao ombro todos os dias, depois lembrei-me daquilo que tinha escrito uns dias antes e cheguei à conclusão que afinal carregar diariamente um calhamaço sem nunca lhe conseguir ler sequer uma página faz todo o sentido para mim. 

Não estou à venda

Já recusei algumas propostas de publicidade no Blog. Uma delas perguntava quanto dinheiro é que eu queria para publicar ISTO no meu blog. ISTO era um texto mal escrito a apresentar um produto de merda que não tinha nada a ver comigo. A publicidade nos Blogues é fraca quando as Bloggers aproveitam qualquer oportunidade para ganhar dinheiro e as marcas querem ser faladas, ainda que seja da pior forma possível. Aqui não se faz publicidade, eu não estou à venda, mas se estivesse faria publicidades em condições, totalmente pensadas por mim, nunca publicaria uma ideia de alguém ou um texto escrito por outra pessoa como se fosse eu a escrever. 

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Antes que todos comecem: Feliz Natal, sim? (Acho que a primeira vez que disse isto este ano ainda era Setembro)

No sábado fiz a minha árvore de Natal, fizemos a nossa árvore de Natal.
No Natal passado a árvore quase causou a nossa separação, era preciso comprá-la e se para mim era urgentíssimo, para ele havia todo o tempo do mundo. Se eu queria mais e mais enfeites e todos ainda eram poucos, ele achava que eram demasiados e que não havia árvore capaz de suportar tanto brilho. Se assim que chegamos com a árvore a casa eu não podia esperar nem mais um segundo, ele não se importava nada de colocar um enfeite por dia, até ao Natal do próximo ano, este. Se para mim pendurar bolas e estrelas e botas e sinos era a maior alegria do mundo, para ele era um martírio. Se eu achava que podia ter comprado só mais uma caixa de bolas, ele achava que a árvore já não tinha ramos livres para colocar as dezenas de bolas que entre discussões lá consegui trazer. Se eu cheguei ao final e achei que tinha a árvore de Natal mais linda do mundo, ele passou vários dias a resmungar que a árvore estava horrível.
Este ano estava ansiosa por fazer a minha árvore, mas achava que para ele seria demasiado cedo e por isso não lhe disse nada, no sábado ele adivinhou-me os desejos e perguntou se não a queria fazer e como dei pulos e gritos de alegria quando cheguei a casa depois de uma breve saída já a tinha pronta a enfeitar, no canto da sala. Este ano os enfeites pareciam poucos e a árvore ficou pronta em menos de nada, este ano a árvore não causou nenhuma discussão, ambos a achamos linda, a mais bela do mundo e por isso escolhi para o topo dois lindos corações, este ano a árvore de Natal é a árvore do amor.

Este ano foi tudo tão fácil que estou cá desconfiada que o filho da mãe me tenha escondido metade dos enfeites para ter menos trabalho, a sério, a minha linda árvore parece-me tão despida que começo a achar que é desta que fico solteira. 

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Querido diário

Que nunca me peçam explicações sobre um texto. Nas entrelinhas conjugam-se segredos inconfessáveis. 

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Meias há muitas, suas palermas!

Eu e a Su fomos passar uns dias juntas em Quiaios, uns dias espectaculares com as nossas bicicletas, os nossos livros que não foram lidos, a montanha para explorar de manhã e a praia para aproveitar à tarde e incendiar à noite (sobre isto não posso contar, nem sob tortura). Claro que nas poucas vezes em que estamos juntas combinamos as meias que vamos usar, claro que só levamos meias que tenhamos repetidas. E desta vez não foi excepção, combinamos muito bem as meias para todos os dias, falamos nisso centenas de vezes, as de padrão tigresa no último dia, as de riscas arco-íris no terceiro dia, as de corações no segundo dia e as de estrelas no primeiro dia. Foi tudo muito bem combinado, eu meti todas as outras meias na mochila, vesti as de estrelas, pedalei até à estação, apanhei um comboio, e depois outro, e depois outro, e saí em Coimbra para encontrar a Su e pedalarmos até Quiaios, lindas e estilosas com as nossas meias de estrelas iguais. E foi assim que quando saí do comboio e olhamos uma para a outra começamos a rir sem conseguir parar, foi assim que nem nos conseguimos cumprimentar de tanto rir, depois de combinar tão bem as meias e de falar 587 vezes das estrelas tínhamos afinal meias diferentes. É que estrelas há muitas e meias ainda mais.

Pergunto

Se desde que saio de casa pela manhã até regressar ao final do dia nunca (e é mesmo nunca) tenho tempos mortos, se não tenho nem cinco minutos livres e sozinha em que possa pegar num livro para ler nem que seja um parágrafo, por que raio continuo eu a transportar na mala um calhamaço religiosamente todos os dias?
Tenho problemas mentais? Sou uma dependente? O grande sonho da minha vida é ter uma doença na coluna? Quero treinar bíceps e tríceps de forma gratuita? Temo ter de apanhar inesperadamente um comboio para a Patagónia? Estou à espera de ir parar a um hospital a qualquer momento? Tenho medo que o mundo acabe sem eu ter um livro para ler enquanto espero pelo último suspiro? Alguém me pode explicar?

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Já arranjei muito bem / Tudo quanto convém / Para a chuva levar / O casaco, as botas, o chapéu / E a camisola com o decote / Que deixa as mamas ao léu / Ter estacionamento privado / Em todo o lado / Também está no meu rol / E como é bom de ver / Não podia esquecer / Os meus óculos de sol

Eu sou a pessoa que nunca, em circunstância alguma, tem um guarda-chuva. Podem estar a cair uns chuviscos ou a chover torrencialmente, o que eu preciso mesmo é dos meus óculos de sol. A água pode chegar-me aos joelhos, posso ficar molhada até às cuecas, o que eu preciso mesmo é dos meus óculos de sol. Sem eles não consigo sair de casa. Claro que um chapéu impermeável, umas corridinhas entre o carro e o local para onde me dirijo e o facto de ser uma pessoa com uma sorte do caralho no que aos estacionamentos diz respeito também ajudam. Eu sou a pessoa que se veste sempre com roupa de verão, pode estar um frio de rachar, temperaturas negativas, pode até estar a nevar, se me tirarem o casaco eu vou estar com uma camisola de manda curta ou um vestido sem costas por baixo. Que venha a chuva, o frio, o granizo, a neve, o vento, as tempestades, os furações e os tufões, eu estou sempre preparada para eles, tenho comigo um top transparente e uns óculos de sol, são tudo o que me faz falta para enfrentar um inverno rigoroso.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Este Blog não era a mesma coisa sem as fantásticas fotos das minhas pedaladas, pois não?

Para que serve o meu Blog (uma quase resposta ao Tio Pipoco)

Não posso falar da questão temporal, o antes e o agora aqui não existem, o meu Blog sempre me serviu para o mesmo, até quando eu ainda não sabia disso e me arriscava a dizer que não servia para absolutamente nada.
Podia falar das pessoas que vieram parar à minha vida por culpa do Blog, podia contar todas as histórias dos dias em que fui reconhecida, podia falar das outras pessoas que escrevem num Blog e que me dizem tanto, me ensinam tanto, podia falar das pessoas que compram um livro porque escrevi sobre ele, das pessoas que querem comprar uma bicicleta e me mandam mail, das pessoas que estão a planear O Caminho delas a Santiago e me escrevem, com a alma desnuda e o coração na ponta dos dedos, podia contar sobre a minha primeira viagem e a responsabilidade de chegar ao destino para não desiludir as pessoas que estavam aqui à minha espera, podia contar em como também pensei nisso quando fiz O Caminho Francês, em como achei sempre que quando estivesse muito mal tinha de continuar, não podia desiludir as pessoas que me estavam a acompanhar, não precisei, durante aqueles 1000 km nunca estive mal, mas as pessoas, todos os dias me emocionava com as pessoas que estavam ali comigo, que me acompanhavam, todos os dias valia a pena tirar uns minutos para dizer onde estava, todos os dias as pessoas me surpreendiam, me faziam ainda mais feliz. Podia contar mil histórias, todas com o mesmo fim, mas decidi-me por uma, a maratona do Gerês, que foi há muito tempo atrás, quando eu ainda não tinha preparação física para lá estar e não podia imaginar o que seriam aqueles 40 km com 1900 metros de acumulado de subida. Todos os finisher teriam um prémio e eu atrevi-me a perguntar aqui no Blog, antes de ir para a maratona, se seria eu uma finisher, se seria eu capaz. O nível de dificuldade não era para mim, naquela altura estava mal, tão mal que fiz praticamente todas as subidas com a bicicleta à mão, não tinha forças e o mais lógico seria ter desistido, houve ali um momento em o podia ter feito, houve ali um momento em que se seguisse pela estrada só tinha de pedalar 3 ou 4 km até à meta, se continuasse tinha mais uma montanha pela frente, mas eu tinha-me atrevido a perguntar aqui no Blog se seria eu uma finisher, se seria eu capaz e naqueles poucos segundos que tive de decidir se continuava ou se desistia foi no Blog que pensei, foi em todas as pessoas que acham que sou capaz de tudo, que acreditam, foi nas palavras que teria de escrever para explicar uma desistência, e continuei, fiz-me à montanha e naquele dia, com muita dificuldade fui uma finisher. O prémio por ter terminado foi uma ridícula cabra de madeira com uns 5 cm que, ironia do destino, perdi quando fiz a mudança de casa, ainda um destes dias falava da cabra e daquilo que ela me custou e ao pensar que a perdi pensei também que não tem importância nenhuma, tenho uma foto dela no Blog, isso é suficiente para mim.
O Blog serve-me para muitas coisas, seria um post interminável se falasse de todas elas, mas a principal é que com ele preciso ter muita mais coragem para desistir do que para continuar, com ele sou uma finisher

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Vivo no mundo das montanhas #5387 (ou mais)

Às vezes só percebemos onde somos capazes de chegar quando alguém nos aponta o topo de uma montanha e nos diz que foi ali que estivemos ainda há poucas horas atrás. Enquanto percorremos a montanha, enquanto subimos, subimos e subimos, quando chegamos ao topo e temos o privilégio de olhar para o mundo dali, enquanto descemos a montanha com um sorriso no rosto e a alma lavada não temos a capacidade de avaliar a grandeza daquilo, estamos lá. Às vezes vamos embora, felizes por tudo o que fizemos naquele dia, pelos locais, pelas paisagens, pela superação, mas é só. Às vezes alguém nos aponta o cimo de uma montanha cá de baixo, de uma enorme montanha, e nos diz que foi ali que estivemos, foi aquele topo que atingimos hoje, e nesse instante não estamos só felizes, somos pequenos, muito pequeninos perante a grande montanha que conquistamos e somos grandes, enormes, porque estivemos lá em cima, porque conseguimos, porque somos capazes. Às vezes só percebemos onde somos capazes de chegar quando alguém nos aponta o topo de uma montanha e nos diz que foi ali que estivemos ainda há poucas horas atrás. Às vezes somos imparáveis, capazes de tudo, até de conquistar o mundo, uma montanha de cada vez e o mundo é nosso.

Bloggers deste país, contem-me tudo, por favor

Vocês têm aquela pessoa que sabe do vosso Blog e que vocês sabem que ela sabe, mas que por um motivo qualquer que vocês não sabem, não vos diz que sabe e vocês, por um motivo qualquer que não querem que se saiba, não lhe dizem que sabem que ela sabe?