quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Lá haveria de chegar o dia deste blog ter um daqueles posts de salsichas ao sol


Bye Bye Summer. Eu, que sou muito mais de Outono, não posso deixar de agradecer as marcas que me tens deixado na pele e na alma.  

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Cálculos de vida

Deixei de dar importância ao número de livros e páginas que leio, assim como aos quilómetros que pedalo. Deixei de fazer os cálculos de quem quer sempre mais números. Leio e pedalo com mais vida agora, aproveito de uma forma diferente duas das minhas grandes paixões, ainda que possa ler e pedalar menos, vivo cada página de livro e cada quilómetro de forma mais intensa, os números perderam a importância, foram substituídos pelas emoções. Continuo a apontar tudo o que leio e a arquivar e orgulhar-me de tudo o que pedalo, continuo a querer sempre mais, mas não da mesma forma, agora quero sempre mais paixão. 

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Descer a quanto obrigas

Haverá quem ache difícil descer a montanha, ler os trilhos técnicos, saltar pedras, enfrentar encostas, controlar a bicicleta em terra seca ou na lama, passar regos, buracos e calhaus, saber o momento exacto para travar antes de ir de focinho ao chão na gravilha ou no lajeado. Haverá quem ache difícil curtir as descidas numa bicicleta todo o terreno. Já eu acho difícil descer o alcatrão, usar da melhor forma a minha bicicleta de estrada e curtir as descidas com um pneu fininho. Por muito que me tentem explicar todas as teorias, todas as normas de segurança, todas as formas de aprender a curvar e a controlar a bicicleta em terreno liso e aparentemente sem dificuldade, eu continuo a achar que descer em estrada é a pior coisa do mundo. Passo a vida a imaginar um carro a não parar num sinal de stop, a cortar a curva seguinte, a abrir uma porta num estacionamento, a fazer uma ultrapassagem perigosa, passo a vida a imaginar um cão ou um gato assustado a sair da vegetação e a bater-me na roda, um buraco na estrada impossível de passar a alta velocidade, uma curva mal calculada e a perda do controle da bicicleta, passo a vida a imaginar a dor de me esbardalhar no alcatrão. Eu desço, vou descendo, devagar, devagarinho, a travar, a travar tanto que no final de cada descida me parece que ganhei uma tendinite em cada mão. Sim, já sei, um dia destes caio, mas vai ser de tanto travar. 

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Reler-me #40

E por falar em música

Por fora sou Electrónica, sou Reggea, sou Disco, sou Funk, sou Pop, sou Rock. Por dentro sou Blues, sou Clássica, sou Romântica, sou Jazz, sou Fado. O meu corpo e a minha alma dançam compassos diferentes. Por fora posso até ser Heavy Metal, por dentro sou uma sinfonia. O meu corpo mexe e remexe na pista de dança, a minha alma sonha ao som do violino.

Julho de 2015

Wo wants to be normal?

Aquilo que temos de loucos faz de nós especiais.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Os meus livros #26 - Depois de morrer aconteceram-me muitas coisas (Ricardo Adolfo)




Sinopse


Brito é imigrante ilegal numa cidade que não conhece e cuja língua não fala. Um domingo à tarde, depois da volta das montras, perde-se a caminho de casa com a mulher e o filho pequeno. E como acredita que para tomar uma decisão acertada tem de fazer o contrário daquilo que acha que está correcto, o regresso a casa revela-se impossível. Depois de uma noite na rua, Brito percebe que se não pedir ajuda pode ficar perdido para sempre, mas se o fizer pode arruinar o sonho de uma vida nova. Em pouco mais de vinte e quatro horas, Depois de morrer aconteceram-me muitas coisas explora o que é viver imigrado dentro de si mesmo - mais difícil do que qualquer exílio.

"Lugar nenhum"

Chegou de lugar nenhum e caminhou ao meu lado em direcção a um destino certo. Perdemo-nos, não sabíamos para onde nos dirigíamos. Atiramo-nos de cabeça ao abismo sem pára-quedas capaz de suportar o peso da nossa loucura. Queríamos ir para um lugar qualquer e agora vamos juntos para qualquer lugar. 

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Reler-me #39

Qual foi a coisa mais bonita que fizeste por ti?

A Dias Cães foi aprender a dançar ballet aos trinta e quatro anos e contou-nos de uma forma espectacular como isso foi a coisa mais bonita que já fez por ela. Li aquele post com emoção e orgulho porque me identifiquei com cada linha e com cada sentimento escondido nas entrelinhas. 

Talvez seja muito complicado para alguns (para a maioria) perceber porque é que a coisa mais bonita que já fiz por mim foi ter pegado numa bicicleta, há alguns anos atrás, e ter ido pedalar para o monte. Talvez um dia destes a vida me faça mudar de ideias, mas duvido. Ter ido com a minha bicicleta para a montanha aquele primeiro dia e todos os outros que se seguiram fez de mim uma pessoa diferente, fez-me olhar para a vida e para o mundo de outra perspectiva, ensinou-me a analisar as pessoas de uma forma que nunca conseguiria e o mais importante, ensinou-me a conhecer-me a mim própria, como nunca tinha sido capaz. Ter ido com a minha bicicleta para a montanha aquele primeiro dia e nunca ter desistido de ir uma e outra e outra vez fez-me conhecer locais que nunca conheceria por outros meios, trouxe para a minha vida pessoas sem as quais já não me consigo imaginar, proporcionou-me as maiores dores e os maiores prazeres, fez-me sentir as coisas, o mundo, a vida de um modo especial. Ter ido com a minha bicicleta para a montanha aquele primeiro dia e todos os dias fez-me olhar para mim com orgulho, fez-me gostar mais de mim, fez-me parar muitas vezes para pensar que sou mesmo eu, que estou mesmo a fazer aquilo, que sou espectacular, fez-me admirar a minha coragem, gostar de nós é único, todos deveriam saber o que isso é. Claro que já me senti muito mal na montanha, claro que já me apeteceu milhões de vezes deixar a bicicleta para trás e vir a pé para casa, sentar-me confortavelmente no sofá a ler, mas essa sensação passa muito depressa, não há meta que não traga alegria, orgulho e ensinamento, não há meta que não peça mais, não há meta que não seja um novo começo. Ir com a minha bicicleta para a montanha dá-me histórias, experiência, sorrisos, pessoas, lágrimas, emoções, dores, prazer, sítios, amizades eternas, dá-me inumeráveis sentimentos, dá-me vida. E por isso, sim, ter ido aquele dia com a minha bicicleta para a montanha e ter feito disso uma forma de vida foi a coisa mais bonita que já fiz por mim, porque olho para trás e não sei como seria se não fosse assim, porque fez de mim grande parte daquilo que sou hoje.

Talvez seja muito complicado para alguns (para a maioria) perceber isto, mas talvez, como me disse a Dias Cães, isto seja inspirador para as pessoas que merecem saber o quão bom é esfolar os joelhos. 

Julho de 2015

Loira, a resgatada

Em cada Caminho que fiz precisei sempre ser resgatada, precisei sempre que alguém me fosse buscar ao destino e me devolvesse ao mundo real, apesar de em cada um deles voltar para o mundo real fosse a coisa que menos me apeteceu. Com excepção do Caminho que fiz de ida e volta e que por isso parti e cheguei a casa de bicicleta e do Caminho que fiz a pé e no qual tomei a decisão de seguir sozinha e por isso só me fazia sentido apanhar o comboio e não depender de ninguém para me trazer de volta a um local onde estaria só eu, sempre precisei de alguém que me ajudasse no regresso, de alguém que me resgatasse dos dias de retiro e de Caminho. 
Aconteceu-me pela primeira vez trocar de posição e ser eu a resgatar alguém, a trazer de volta à realidade pessoas muitas especiais. Fui, voltei. Posso dizer que O Caminho é tão mágico que mesmo não o tendo feito a emoção de ver as nossas pessoas chegar é tão grande como se de facto tivéssemos mesmo vivido aqueles dias juntos.
Loira, a resgatada, mesmo quando vai resgatar consegue voltar de coração cheio. Que O Caminho nunca acabe e que nunca deixe de nos dar tempo só nosso, emoções especiais e sinais para as respostas ou para as perguntas que procuramos cá dentro. 

terça-feira, 5 de setembro de 2017

A vida é feita de recomeços

É preciso voltar à vida real, aos horários e obrigações, às diversões no meio da rotina, aos dias a tentar fazer sempre mais e ter tempo para tudo. É preciso voltar ao trabalho, a casa e ao despertador. É preciso arrumar a casa, organizar gavetas e atirar pela janela aquilo que não nos faz falta. É preciso voltar a olhar para o relógio. É preciso voltar a pedalar quando dá, voltar a tentar ler sempre um pouco mais, voltar a planear e a sonhar. É preciso actualizar as listas das coisas a fazer, dos sítios para ir, dos locais a conhecer. A vida é feita de recomeços. E de pausas. A vida é feita de vontade de recomeçar depois de uma pausa muito necessária. A vida é feita de recomeços. É preciso até voltar a escrever. 

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Julgar o livro pela capa

É certo que o importante é o conteúdo, as páginas de história e de vida que acabaram de chegar. É certo também que já não consigo ler compulsivamente como o fiz em tempos, vou lendo e saboreando as páginas, já não as consigo devorar. Mas continuo apaixonada pelos livros, não saio de casa sem levar um comigo, carrego diariamente o peso da minha paixão, sem ele sinto-me nua, passeio-o também pela casa, como que trazê-lo comigo seja a coisa mais importante do mundo. Continuo a mimar e a cheirar os livros quando os recebo, continuam a brilhar-me os olhos a cada livro que acrescento à minha vida, continuo a dar importância a cada pormenor, depois de o cheirar tiro sempre o preço, não sou capaz de ter um livro com preço, os livros não têm valor, analiso a capa e a contracapa como quem inspecciona o Santo Graal da literatura, volto a cheirá-lo e guardo-o bem seguro com um sorriso verdadeiro e cheio de carinho, como aqueles que só se dão aos amigos. É certo que o importante é o conteúdo, as páginas de história e de vida que acabaram de chegar, os momentos agradáveis que vou passar com ele, as emoções, a aprendizagem, os pedaços de tempo e as vivências, mas ainda sim devia ser proibido comprar um livro com um capa e receber o livro com outra, as capas são o que por vezes nos fazem apaixonar, são uma parte do sentido que queremos dar à história, são uma forma de julgar o livro antes de o conhecer. Devolvam-me a minha capa, era aquela que eu queria. Que puta de mania que esta gente tem de estragar as capas dos livros.

domingo, 6 de agosto de 2017

Reler-me #38

Parem de dizer mal das vossas mulheres

Que vos ocupam o espaço todo no guarda-roupa, que têm malas que nunca mais acabam, que não sobra espaço nenhum no sítio dos cremes, que voam sapatos para todo o lado assim que tentam abrir a sapateira, que demoram uma eternidade a ficar prontas, que têm centenas de brincos e de pulseiras e de colares e de relógios e de óculos de sol, que não cabe mais nada em casa, que os casacos que possuem davam para abrigar meia África, que compram, e compram, e compram mais qualquer coisa e que ainda assim, nunca têm nada para vestir. Há pior, acreditem. Há mulheres que além de tudo isso ainda têm capacetes, sapatos de encaixes, colecção de jerseys e de meias coloridas até ao joelho, calções com almofadas no rabo, casacos para a chuva, para o frio, para o vento, óculos de ciclismo, luvas e manguitos. As vossas mulheres são umas santas, quando duvidarem disso lembrem-se de mim, eu sou a pior mulher do mundo, além de tudo o que mencionei em cima ainda compro livros, e mais livros, e mais livros. Parem de dizer mal das vossas mulheres, eu, ainda por cima, não sei cozinhar. 

Julho de 2015

sábado, 5 de agosto de 2017

Os meus livros #25 - Os chouriços são todos para assar (Ricardo Adolfo)





Sinopse 

Inspirado em casos irreais, Os chouriços são todos para assar é uma viagem em contramão pelas estradas secundárias do país, marcada por encontros com personagens encantadoras e situações delirantes.

Reler-me #37

O dia em que fugi de casa

Ainda não tinha dois anos e já eu achava que podia fazer o que bem me apetecia, fugi de casa. A minha família entrou em pânico, a minha mãe começou aos gritos, o meu pai a procurar-me, a minha avó dizem que rezava, a minha madrinha não sabia se havia de acalmar a minha mãe ou ajudar o meu pai a procurar, o meu tio agarrou a minha prima pela mão e foi na direcção oposta ao meu pai. Gritavam pelo meu nome mas eu não respondia. A minha mãe só chorava "Ai... a minha menina", "Ai... a minha filhinha". O pânico, o horror, a tragédia. Foram encontrar-me bem perto, estava no quintal da minha avó, sentada na terra a comer tomates directamente do tomateiro.

E como é que eu sei isto tudo? Porque até hoje, quando me perguntam o que quero lanchar e eu pergunto se têm tomate, quando peço tomate ao almoço ou ao jantar, ou quando estou a comer tomate e afirmo que sim, que adoro tomate, todos me contam (outra vez) a mesma história. O meu pai continua a rir-se de cada vez que se lembra da minha cara suja de terra e de satisfação, enquanto comia os tomates da minha avó.

Parece que sempre fui uma rebelde, houve até o dia em que fugi de casa, para poder comer tomates à vontade. 

Julho de 2015