terça-feira, 8 de agosto de 2017

Julgar o livro pela capa

É certo que o importante é o conteúdo, as páginas de história e de vida que acabaram de chegar. É certo também que já não consigo ler compulsivamente como o fiz em tempos, vou lendo e saboreando as páginas, já não as consigo devorar. Mas continuo apaixonada pelos livros, não saio de casa sem levar um comigo, carrego diariamente o peso da minha paixão, sem ele sinto-me nua, passeio-o também pela casa, como que trazê-lo comigo seja a coisa mais importante do mundo. Continuo a mimar e a cheirar os livros quando os recebo, continuam a brilhar-me os olhos a cada livro que acrescento à minha vida, continuo a dar importância a cada pormenor, depois de o cheirar tiro sempre o preço, não sou capaz de ter um livro com preço, os livros não têm valor, analiso a capa e a contracapa como quem inspecciona o Santo Graal da literatura, volto a cheirá-lo e guardo-o bem seguro com um sorriso verdadeiro e cheio de carinho, como aqueles que só se dão aos amigos. É certo que o importante é o conteúdo, as páginas de história e de vida que acabaram de chegar, os momentos agradáveis que vou passar com ele, as emoções, a aprendizagem, os pedaços de tempo e as vivências, mas ainda sim devia ser proibido comprar um livro com um capa e receber o livro com outra, as capas são o que por vezes nos fazem apaixonar, são uma parte do sentido que queremos dar à história, são uma forma de julgar o livro antes de o conhecer. Devolvam-me a minha capa, era aquela que eu queria. Que puta de mania que esta gente tem de estragar as capas dos livros.

domingo, 6 de agosto de 2017

Reler-me #38

Parem de dizer mal das vossas mulheres

Que vos ocupam o espaço todo no guarda-roupa, que têm malas que nunca mais acabam, que não sobra espaço nenhum no sítio dos cremes, que voam sapatos para todo o lado assim que tentam abrir a sapateira, que demoram uma eternidade a ficar prontas, que têm centenas de brincos e de pulseiras e de colares e de relógios e de óculos de sol, que não cabe mais nada em casa, que os casacos que possuem davam para abrigar meia África, que compram, e compram, e compram mais qualquer coisa e que ainda assim, nunca têm nada para vestir. Há pior, acreditem. Há mulheres que além de tudo isso ainda têm capacetes, sapatos de encaixes, colecção de jerseys e de meias coloridas até ao joelho, calções com almofadas no rabo, casacos para a chuva, para o frio, para o vento, óculos de ciclismo, luvas e manguitos. As vossas mulheres são umas santas, quando duvidarem disso lembrem-se de mim, eu sou a pior mulher do mundo, além de tudo o que mencionei em cima ainda compro livros, e mais livros, e mais livros. Parem de dizer mal das vossas mulheres, eu, ainda por cima, não sei cozinhar. 

Julho de 2015

sábado, 5 de agosto de 2017

Os meus livros #25 - Os chouriços são todos para assar (Ricardo Adolfo)





Sinopse 

Inspirado em casos irreais, Os chouriços são todos para assar é uma viagem em contramão pelas estradas secundárias do país, marcada por encontros com personagens encantadoras e situações delirantes.

Reler-me #37

O dia em que fugi de casa

Ainda não tinha dois anos e já eu achava que podia fazer o que bem me apetecia, fugi de casa. A minha família entrou em pânico, a minha mãe começou aos gritos, o meu pai a procurar-me, a minha avó dizem que rezava, a minha madrinha não sabia se havia de acalmar a minha mãe ou ajudar o meu pai a procurar, o meu tio agarrou a minha prima pela mão e foi na direcção oposta ao meu pai. Gritavam pelo meu nome mas eu não respondia. A minha mãe só chorava "Ai... a minha menina", "Ai... a minha filhinha". O pânico, o horror, a tragédia. Foram encontrar-me bem perto, estava no quintal da minha avó, sentada na terra a comer tomates directamente do tomateiro.

E como é que eu sei isto tudo? Porque até hoje, quando me perguntam o que quero lanchar e eu pergunto se têm tomate, quando peço tomate ao almoço ou ao jantar, ou quando estou a comer tomate e afirmo que sim, que adoro tomate, todos me contam (outra vez) a mesma história. O meu pai continua a rir-se de cada vez que se lembra da minha cara suja de terra e de satisfação, enquanto comia os tomates da minha avó.

Parece que sempre fui uma rebelde, houve até o dia em que fugi de casa, para poder comer tomates à vontade. 

Julho de 2015

terça-feira, 1 de agosto de 2017

“Sempre que vejo um adulto de bicicleta, volto a confiar no futuro da raça humana.” - Herbert George Wells

No sábado subi a um dos meu sítios preferidos do mundo e fiquei a contemplar a paisagem e a paz que se sente por lá. No domingo fui a mais um topo especial e mais uma vez fiquei por lá, a respirar e a viver intensamente a lentidão dos dias. Na segunda subi a um dos topos que mais vezes me acolhe e terminei o dia muito feliz. Na terça fui mais uma vez fazer a subida das subidas e cheguei a casa cansada. Na quarta fui só à minha pista, respirar o ar puro do final de mais um dia. Na quinta carreguei as luzes e fui num nocturno às festas da cidade vizinha comer e beber como se não houvesse dia seguinte. No sábado voltei à estrada e fui muito feliz. Ontem, mesmo doente, fui fazer a minha pista e regressei a casa bem melhor do que se tivesse ficado no sofá. Hoje já estou a pensar em equipar.
De tudo o que pedalar me dá de bom a liberdade de ir é sem dúvida o melhor.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Se uma Loira...

Na estrada da vida não és sempre a mesma pessoa, vais mudando, vais-te adaptando, vais aprendendo, vais-te moldando ao que a vida te obriga, vais-te tornando cada vez mais tu, porque tu és hoje exactamente aquilo que as curvas e contracurvas fizeram de ti. Na estrada da vida vai em frente, volta para trás, vira à esquerda ou à direita, segue a direcção que te parece bem na altura, larga os travões nos dias em que a velocidade for mais importante para ti ou trava a fundo se te parecer que é essa a opção que mais te convém, sobe com toda a garra do mundo se é de energia que vives naquele momento ou vai a passear se o que queres é aproveitar a paisagem.
Na estrada da vida segue o rumo e as opções que achas que tens de seguir, adapta-te, transforma-te. Na estrada da vida só nunca te esqueças da tua essência, porque é ela que te torna um ser único e especial.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Os meus livros #24 - A Purga (Sofi Oksanen)

SINOPSE

Em 1992 a União Soviética desmorona-se, e na Estónia é possível por fim saborear a liberdade e projectar o futuro. Todos migram para a capital e ninguém quer viver no campo. Ficam apenas os velhos, alguns bêbados e bandos de rapazes desordeiros. Aliide Truu, senhora idosa, vive alheada do mundo na sua casa numa aldeia despovoada, e passa os dias a ouvir rádio e fazer conservas de fruta. A aparente normalidade da sua existência é despedaçada numa noite de fim de Verão, quando a sua vida se cruza com a de uma jovem mulher que precisa desesperadamente da sua ajuda. Zara conta que trabalhava como empregada de mesa, e que anda fugida do marido violento. Nada disto é verdade. Ao inventar uma história para si, Zara espera conseguir esquecer o passado. Ao oferecer abrigo a Zara, também Aliide terá de confrontar o passado nebuloso, carregado de paixões, traições e vinganças. Para poderem sobreviver, ambas as mulheres terão de enfrentar e aceitar a verdade da sua história. E só então poderão também descobrir os inesperados laços que as unem. As vidas de Zara e Aliide, e das gerações de mulheres que representam, desdobram-se sobre o pano de fundo da ocupação soviética da Estónia e compõem um mosaico da sociedade europeia dos últimos cinquenta anos: a repressão política, o tráfico humano, a violência sobre as mulheres. É diante deste inquietante cenário que a vida fervilha e se desenrola um incrível drama familiar, pleno de rivalidade, culpa, desejo e amor.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Reler-me #36

Coisa triste de se dizer/escrever: Não sou a super Mulher.

Tenho esta mania de fazer discursos encorajantes, tenho esta mania de que posso tudo o que quero e consigo tudo aquilo a que me proponho, tenho esta mania de achar que se os outros conseguem eu também consigo e que se eu consegui estão toda a gente consegue, tenho esta mania de que o verbo desistir é inconjugável para mim. As coisas não são assim tão lineares, eu sei, mas verbalizar um "não consegui" é para mim impensável. Ou melhor, era, uma vez que estou prestes a fazê-lo. Em toda a minha vida ao pedal nunca desisti ou deixei os desafios a que me propus pela metade, podia estar muito mal, podia estar sem forças, podia até pensar não ser capaz de terminar mas sempre segui em frente e com isso sempre cheguei ao final. Todas as regras trazem excepção e a primeira surgiu com um problema mecânico que me fez abandonar uma maratona a meio, ainda assim, convencida de que sou sempre capaz de tudo não admiti que me levassem de carro, a mim e à bicicleta, perguntei onde era a estrada mais perto e segui por lá, convicta que nunca chegaria a uma meta ou a casa sem ser montada em cima da bicicleta. Mas às vezes o nosso corpo é bem capaz de trair a nossa mente e no ano passado tive de parar a meio de uma maratona e vir de carrinha embora, estava com falta de açúcar no sangue e simplesmente não consegui continuar, parei no ponto em que não consegui dar nem mais uma pedalada, até lá, juro que tentei, tal como tentei no passado sábado. Partimos de manhã bem cedo para uma longa viagem até à zona do Gerês, ir e voltar são mais de 100 km, mas nada de especial para nós, o dia não começou bem, furamos 3 vezes e isso atrasou muito a nossa viagem, estava demasiado calor e já durante a manhã estava a sentir-me sem forças, continuei sempre, chegamos ao nosso destino, cansados mas felizes, depois almoçamos e era só regressar, senti-me cada vez mais cansada, cada vez com menos forças mas continuei, os meus companheiros perguntavam se eu estava bem, eu dizia que sim mas não estava, ainda assim continuei e continuei sempre, fiz mais de 50 km até que tive de parar, estava tonta, a tremer e sem forças, com a tensão baixa de mais, parei com a ideia de descansar e continuar mas não consegui, não consegui recuperar e tive que chamar uma amiga para me levar a casa de carro, estava a uns 5 km de casa, sem subidas praticamente nenhumas e não consegui recuperar para pedalar até lá. Às vezes o nosso corpo é capaz de trair a nossa mente, por isso verbalizar este "não consegui" será importante, tenho que me convencer de que não sou a super Mulher.

Julho de 2014

terça-feira, 25 de julho de 2017

Quando nos morre um leitor

Não se deixem enganar, parece muito fácil manter o anonimato inicialmente, mas não é, há sempre os leitores especiais. Há os leitores que fazem perguntas, que pedem ajuda, que pedem informação, que querem saber mais, que querem fazer, que contam histórias, que contam a sua história, há os leitores que se identificam com algo, com um local, com uma frase, com um livro, com aquilo que escrevemos, com aquilo que somos. Há os leitores que lêem e que só por isso já sabem conhecer, já sabem interpretar, já sabem identificar aquilo que escondemos nas mais profundas entrelinhas. Há os leitores que conseguem entender uma fase boa ou uma fase má só de ler, ainda que aparentemente pareça fácil esconder, há os leitores que conseguem ver a tristeza disfarçada numa piada ou num post que parece banal, que conseguem perceber a ironia onde os outros vêem outra coisa qualquer. Há leitores que conhecem, que se importam, que o dizem, que fazem valer a pena.
Quando nos morre um leitor, desses especiais, o blog fica mais pobre, a escrita fica mais pobre, o(a) autor(a) fica mais pobre. Eu fiquei mais pobre. Até sempre Vítor.

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Reler-me #35

Pedras no caminho?

Não as guardo todas. Um dia não vou construir um castelo. Pedras no caminho? É BTT puro e duro. Divirto-me com elas.

Julho de 2014

Os meus livros #23 - A herança de Eszter (Sándor Márai)



Sinopse


Durante vinte anos Eszter viveu uma existência cinzenta e monótona, fechada sobre si própria, esperando a morte e sonhando com o retorno de um amor impossível. Até ao dia em que, inesperadamente, recebe um telegrama de Lajos, o único homem que amou e graças ao qual encontrou, por um breve período, sentido para a sua vida. Grande sedutor e canalha sem escrúpulos, Lajos não só traiu Eszter como destruiu a sua família, tirando-lhe tudo o que possuía. Agora, depois de uma ausência prolongada regressa, e Eszter prepara-se para o receber comovida e perturbada por sentimentos contraditórios.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Querido diário,

Não tentes caminhar lado a lado com quem quer chegar ao mesmo destino que tu. Caminha lado a lado com quem quer viver o caminho como tu.

A loucura é o meu estado natural

Grandes posts dariam as minhas loucuras, as minhas aventuras. Este Blog já viveu disso, dos meus momentos de insanidade ao pedal e na vida, agora anda um pouco perdido, adormecido, esquecido. No meio desta minha falta de inspiração e de organização de tempo ainda comecei a escrever num outro Blog. Tenho agora de alimentar dois espaços com pedaços de vida, de loucuras e de aventuras, que grandes posts dariam se eu ainda olhasse para os meus momentos de insanidade como situações únicas, espectaculares, raras e extravagantes, acontece que para mim esses momentos agora são normais, banais, usuais e por vezes até diários. Não sei o que me aconteceu entretanto, mas a loucura é o meu estado natural.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Reler-me #34

Estes dias tenho-me lembrado muito desse dia

Enquanto estava a fazer O Caminho Francês de Santiago, quase há um ano atrás, houve um dia em que fiquei doente. Durante a noite tive uma paragem digestiva e quando acordei em Mansilla de Las Mulas sentia-me muito mal, tinha dores de estômago, dores de cabeça, estava enjoada e tinha uma sede indescritível. Preparamos tudo para partir e eu sempre doente, os meus companheiros de viagem tomaram o pequeno-almoço e partimos. Pouco tempo depois de ter começado a pedalar vomitei e fiquei a sentir-me ainda mais doente. Continuamos a pedalar, paramos algumas vezes durante o dia para os meus colegas comerem, eu não conseguia. Pedalei todo o dia sem comer, sentia-me fraca mas continuei a pedalar, por vezes ficava sem forças, recuperava e continuava. O destino pensado para esse dia era Astorga e chegamos lá a meio da tarde. Não consegui lanchar. Fomos visitar o palácio de Gaudi, estivemos numa festa popular que havia no centro da cidade e fomos ainda a uma bênção de peregrinos para a qual nos haviam convidado. Já depois, enquanto os meus colegas jantavam e eu olhava para eles a minha amiga disse-me com o ar mais natural do mundo que estava muito orgulhosa de mim por eu estar doente e ainda assim pedalar todo o dia, disse-me ela que eu podia muito bem ter parado a meio do percurso ou simplesmente nem ter saído de Mansilla de las Mulas. Só nesse exacto momento é que pensei nisso, durante todo o dia nunca pensei sequer em parar, nunca foi uma opção. Estes dias tenho-me lembrado muito desse dia, quando na nossa cabeça não há outra opção, continuar em frente é a única solução. Ainda bem que nesse dia nunca houve outra opção para mim a não ser o destino planeado e ainda bem que estes dia me tenho lembrado muito desse dia, sempre como um exemplo a seguir. 

Julho de 2014

domingo, 16 de julho de 2017

Reler-me #33

As pessoas, sempre as pessoas.

Quando comecei a praticar BTT na cidade onde vivo seriam uns 30 que faziam o mesmo. Todos sabiam que se pedalava às terças e quintas às 20:00 H, aos sábados às 14:00 H e aos domingos às 08:30 H, partíamos sempre do mesmo local, todos sabiam disso, todos se juntavam para ir para o monte andar de bicicleta, para se divertir e para comer e beber com os amigos, eram todos amigos. Depois, andar de bicicleta virou uma moda e começaram a chegar os outros. Chegaram os que começaram a combinar partir exactamente à hora de sempre, mas num local diferente. Chegaram os que quiseram dividir as pessoas por grupos. Chegaram os que queriam competir. Chegaram os que queriam competir com os amigos. Chegaram os que só queriam elogios porque andavam muito. Chegaram os que quiseram criar o seu próprio grupo. Chegaram os que fizeram da bicicleta a sua vida. Chegaram os que se diziam amigos mas só ligavam quando precisavam de boleia. Chegaram os que se chatearam com os outros. Chegaram os que só olham para a bicicleta deles, que é como quem diz, para o umbigo deles. Chegaram os que fazem dos passeios uma corrida. Chegaram os que criticam tudo e todos. Chegaram os que "com aquele é que eu não ando". Chegaram os que são capazes de deixar um amigo para trás. Chegaram os que acham que os passeios deles são melhores do que os dos outros. Chegaram os que acham que são melhores que os outros. Chegaram muitos e o espírito inicial perdeu-se. Perdeu-se a cumplicidade que se tinha às terças e quintas à noite, aos sábados à tarde e aos domingos de manhã, sempre em frente da loja do Pedro, sempre para todos. Perdeu-se, mas não irremediavelmente, as coisas podem nunca mais ser como eram no início mas como em tudo na vida é fácil manter o espírito, o nosso espírito, basta pedalar com as pessoas que valem realmente a pena, porque as pessoas continuam a ser o mais importante, é só aprender a distinguir as pessoas, as nossas pessoas, e não se importar com as outras, como em tudo na vida.

Julho de 2014

Os meus livros #22 - Crónica de uma Morte Anunciada (Gabriel García Márquez)


Sinopse

Vítima da denúncia falaciosa de uma mulher repudiada na noite de núpcias, o jovem Santiago Nasar foi condenado à morte pelos irmãos da sua hipotética amante, como forma de vingar publicamente a sua honra ultrajada e sob o olhar cúmplice ou impotente da população expectante de uma aldeia colombiana: é esta a história verídica que serve de base a este romance, e que, logo nas suas primeiras linhas, é enunciada.

A capacidade de Gabriel García Márquez em reconstruir um universo possuído pela nostalgia, mágica e encantatória da infância e a sua genial mestria em contar histórias fazem deste romance mais uma das obras-primas que consagraram definitivamente este autor.

sábado, 15 de julho de 2017

Reler-me #32

Ravishankar Ragavan

Li por estes dias o livro Quem quer ser bilionário, quando a adaptação ao cinema saiu, há anos atrás, o Ravi disse-me para o ir ver, teria ido de qualquer forma mas o Ravi explicou-me que o filme retratava a Índia dele, falou-me dos pormenores, disse-me para estar atenta a algumas coisas e falou-me de locais e de formas de vida que eu desconhecia por completo. O Ravi trabalhou comigo durante alguns meses, tinha data marcada para regressar à Índia, estava de casamento marcado e tinha que ser naquela data exacta, nem mais um dia, nem menos um dia, os astros diziam que eles tinham que casar naquele dia, senão nunca mais casariam. O Ravi aproveitou a oportunidade única na vida de trabalho fora da Índia e veio, ainda que com a ressalva de voltar para aquele dia, o dia exacto que tinha de casar, senão nunca mais. E o Ravi regressou à sua Índia, com a notícia de que não poderia mais voltar e com a esperança que as coisas ainda pudessem mudar. O SEF não deu a autorização ao Ravi de voltar, apesar de ele ter residência em Portugal e de ter um contrato de trabalho assinado. A firma onde eu trabalhava na altura teve ainda de assinar um documento em que se responsabilizava por qualquer acto que o Ravi pudesse cometer enquanto esperava por outro avião na Alemanha, qualquer acto que ele pudesse cometer dentro do aeroporto durante um par de horas, uma vez que não tinha sequer autorização para sair do aeroporto, assim mesmo, como se fosse um foragido. O Ravi que só queria casar e voltar para cá já com a mulher para trabalhar, o Ravi que ficava com os olhos a brilhar só de falar na forma como conseguimos por cá organizar o trânsito e da limpeza nas ruas. O Ravi partiu triste, com a esperança de voltar um dia, esperança essa que nunca mais se concretizou, mas voltou feliz, com um sorriso fantástico através das fotos do casamento. A vida é feita de opções e de oportunidades, mas há pessoas que nascem já com as oportunidades muito limitadas. Enfim, o livro não tem nada a ver com o filme, o livro não me mostrou os pormenores da Índia do Ravi e não me emocionou como o filme, talvez a culpa tenha sido do Ravi mas eu passei o filme a chorar e a rir e a chorar novamente. Um destes dias tenho que rever o filme e mandar um email ao Ravi, há muito tempo que não tenho notícias dele.

Julho de 2014

Os meus livros #21 - O meu nome era Eileen (Otessa Moshfegf)

SINOPSE
O Natal é uma época que tem muito pouco para oferecer a Eileen Dunlop, uma rapariga modesta e perturbada, presa a um emprego enfadonho como secretária num instituto de correção de menores e forçada a cuidar de um pai alcoólico. Eileen tempera os seus dias vazios com fantasias perversas e sonhos de fuga para uma cidade grande. Enquanto não o consegue, entretém-se a fazer pequenos furtos na loja de conveniência e a fantasiar com Randy, um guarda do reformatório com corpo de homem e cabeça de rapaz. Quando Rebecca Saint John, uma ruiva vistosa, alegre e inteligente, é contratada como a nova psicóloga do reformatório, Eileen é incapaz de resistir à sedução de uma amizade que promete transformar a sua vida. Mas, numa reviravolta digna de Hitchcock, o poder de Rebecca sobre Eileen converte a rapariga em cúmplice de um crime a que pode ser impossível escapar. Com a paisagem nevada da Nova Inglaterra como pano de fundo, a história de Eileen é arrepiante, hipnótica e divertida. Com um primeiro romance cheio de força, que agarra e perturba o leitor até à última página, Ottessa Moshfegh faz uma entrada retumbante nas letras norte-americanas

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Reler-me é inspirador

No início de 2017 propus-me o exercício de reler o meu blog, de em cada mês voltar ao mesmo mês dos anos anteriores e de assim lembrar tudo o que escrevi para não esquecer e tudo o que escondi nas entrelinhas ao longo dos anos que o blog passou comigo, tenho conseguido até lembrar-me dos porquês das pausas e dos abandonos ao meu diário. Cumprir este desafio tem-me feito recordar e viver novamente, talvez seja essa a verdadeira utilidade de escrever pedaços nossos para um mundo desconhecido, inspirar-nos a escrever ainda mais, a transformar dias em histórias e momentos em parágrafos, a conjugar sentimentos e a arranjar palavras que descrevam o mais profundo recanto da nossa alma. Reler-me é inspirador, manter o blog vivo também.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Querido diário

Escrever nunca poderá ser obrigação. Escrever só por inspiração, só por paixão.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

O registo fotográfico que faltava











De Fátima a Santiago pelo Caminho de Santiago, Junho de 2017

Um Caminho grande, um grande Caminho.

terça-feira, 27 de junho de 2017

As setas apontam para o mundo


E foi o mundo que as setas me mostraram, me mudaram. Talvez o mundo ache que foi aqui que me perdi, ao mundo só tenho a dizer que foi aqui que me encontrei. 

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Não sei se uma imagem vale mais do que mil palavras

Sei que na minha visão do mundo escolho sempre as palavras, apesar de me ter proposto há uns tempos atrás a arranjar mais imagens daquilo que vejo, por adorar fotografia, mas não é fácil para mim, quando olho para o espigueiro no meio da aldeia, para a flor amarela e solitária no meio do campo de erva, para o cão deitado no muro, para a idosa à sombra da árvore, para as flores coloridas da casa na descida, para o topo da montanha visto antes de começar a subida ou para a paisagem incrível que vejo lá de cima, quando finalmente a subida acaba, acho sempre que tenho de mostrar tudo ao mundo através das minhas palavras. Escolho sempre conjugar o que sinto, o que vejo e o que faço, as palavras são a minha primeira opção. Preciso arranjar mais imagens, não só para arranjar forma de mostrar ao mundo o quanto o meu mundo é belo, preciso arranjar mais imagens, para conseguir arranjar também mais palavras e descrever e conjugar tudo aquilo que me inspira, tudo aquilo que me apaixona, tudo aquilo que existe. Não sei se uma imagem vale mais do que mil palavras, ou se as palavras quando bem interpretadas valem mais que mil imagens, sei que ambiciono que as imagens e as palavras se confundam nos meus recantos mais profundos e que a minha visão do mundo seja uma união perfeita.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

As Bloggers

Já não me lembro quando a comecei a ler, ou ela a mim, sei que foi há alguns anos atrás e que o facto de ambas pedalarmos fez com que nunca mais deixássemos de nos ler. Vi-a pela primeira vez num NGPS, sem nada combinado, ficamos a saber pelos posts do dia que o desafio seria comum às duas. Passaram alguns anos entretanto, de leituras, partilhas e muito mais, até o ano passado, quando eu, já não me lembro muito bem como nem porquê a desafiei a vir comigo na minha viagem. Somos a prova que se pode gostar e interpretar uma pessoa por aquilo que ela escreve e que compreendendo as entrelinhas podemos mesmo conhecer essa pessoa, somos a prova de que não são precisas muitas palavras para dizer um gosto de ti. Foram os nossos blogues que nos fizeram confiar, eu confiei nela e naquilo que lia quando a chamei para o meu grupo de amigos, para a viagem, para minha casa e para o meu mundo, ela confiou em mim e naquilo que lia quando aceitou, quando apanhou o comboio e veio, quando montou o alforge e saiu de casa para uma aventura incerta. Este ano repetimos a aventura, voltei a desafiar a Gaja Maria e ela voltou a acreditar em mim, ainda bem que o fizemos, foi uma viagem muito especial esta. A Gaja Maria e a Loira há muito que deixaram de ser bloggers para serem amigas, com muito em comum. Foi bom, foi muito bom partilhar a grande viagem do ano com ela, sei que na próxima aventura não vai ser preciso convidar, ela vai lá estar, porque já faz parte. Gosto dela, gosto mesmo, gosto tanto que estava capaz de publicar uma foto das duas, tirada por trás, enquanto conversávamos e pedalávamos lado a lado, uma linda visão daquilo que foi a nossa viagem, só não publico porque a desgraçada é muito mais magra que eu.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Se a vida te der limões...

Todos os Caminhos me mudam. Uns com mais, outros com menos intensidade, mas quando saio de casa com a bicicleta carregada do que é essencial à sobrevivência e à continuação da viagem em caso de azar e nada mais, sei que hei-de voltar diferente. É impossível ser a mesma pessoa depois das experiências e dos ensinamentos que cada viagem nos faculta. Ainda a digerir os meus 5 dias de pedalada, os 480 km e os 7000 mt de acumulado de subida debaixo de um calor intenso, abrasador, quase insuportável, tenho já a certeza que esta viagem me ensinou a relativizar. Cheguei à meta a dar mais importância a tudo o que O Caminho me deu de bom e a desvalorizar aquilo que me deu de mau. Cheguei à meta calma, serena, tranquila e em paz, mesmo que tudo apontasse para que assim não acontecesse. 
Naquele que considero o dia mais duro da viagem, quando tinha a garganta completamente seca e arranhada pelo calor tórrido que se fazia sentir olhei para a direita e vi uma máquina de água com água fresca e vários limões, no muro de uma casa de alguém que sabe que quem lá passa precisa de mimos e de esperança. Água fresca e um limão era tudo o que eu precisava naquela hora. Água fresca e um limão, coisas tão básicas na nossa vida e às quais não damos nenhum valor. Água fresca e um limão, que me renovaram a alma e me fizeram sorrir do fundo do coração. Cheguei à meta a dar mais importância a tudo o que O Caminho me deu de bom e a desvalorizar aquilo que me deu de mau. Ainda antes do final da viagem recebi notícias da tragédia que acontecia no meu país, nos locais por onde eu tinha passado ainda uns dias antes, a pedalar em direcção a um mundo só meu, só nosso, de quem percebe o que procuramos quando saímos de casa assim. Não vale a pena dar importância às pequenas coisas que nos acontecem de mau, um dia destes a vida encarrega-se de nos pôr à prova e nessa altura já o mundo será demasiado duro. Por enquanto, se a vida te der limões faz limonada. Faz limonada e segue Caminho, porque a limonada pode ser tudo o que tu precisas naquele momento.

terça-feira, 20 de junho de 2017

E foi então que momentaneamente perdemos um dos elementos do grupo

E esperávamos por ele, na beira da estrada, encostados a uma casa, bicicletas carregadas e demasiado pesadas, nós a aproveitar a sombra e o tempo de descanso, nós a aproveitar para respirar profundamente enquanto tentávamos esquecer o excesso de calor, nós a falar de quilómetros, de altimetrias e de médias, nós a fazer contas do tempo que faltava para o destino do dia, nós a pensar nos dias e nos quilómetros que se seguiam, nós à espera, talvez cansados, talvez com sede, talvez com fome, de certeza a morrer de calor, quando a dona da casa, já idosa, pele gasta pelo tempo, abre a porta e ao ver-nos diz com toda a convicção do mundo que: "Meu Deus, cada vez há mais gente doida!"

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Loira is back

Pedalei durante 5 dias. Fiz a ligação do Caminho de Santiago entre Fátima e Santiago de Compostela. Percorri cerca de 480 km com quase 7000 mt de acumulado de subida. Enfrentei subidas intermináveis, descidas incríveis, quilómetros e quilómetros de um calor infernal. Diverti-me imenso, vivi dias de emoções intensas e aventura, aproveitei cada bocadinho de Caminho e cheguei à minha meta feliz, muito feliz. Fechei um ciclo de vida. Talvez tenha ainda muito para absorver e para escrever sobre esta viagem e sobre este grande desafio, por enquanto só uma fantástica e brilhante conclusão: a melhor merda que inventaram até hoje foi o secador de cabelo, se eu já amava o secador de cabelo a partir de agora vou idolatrar o secador de cabelo. Por favor, alguém que classifique o secador de cabelo como um bem de primeira necessidade e que explique à humanidade que o secador de cabelo é essencial para a sobrevivência da raça. Alguém que arranje maneira de eu conseguir secar o cabelo quando ando a viajar em autonomia. Obrigada.

terça-feira, 13 de junho de 2017

A vida é feita de desafios

E eu só sei viver assim, a planear, a sonhar, com novas metas para alcançar, com novo chão para conhecer, com novos caminhos para descobrir, com novas montanhas para conquistar, com novas histórias para contar, com novas aventuras na pele e na alma. A vida é feita de desafios e é um grande desafio que tenho pela frente nos próximos dias. Volto daqui a cerca de 500 km e de muitas emoções. Que seja um Bom Caminho para mim, para nós, que seja um desafio superado. 

domingo, 11 de junho de 2017

Os meus livros #20 - As velas ardem até ao fim (Sándor Márai)




Sinopse

Um pequeno castelo de caça na Hungria, onde outrora se celebravam elegantes saraus e cujos salões decorados ao estilo francês se enchiam da música de Chopin, mudou radicalmente de aspecto. O esplendor de então já não existe, tudo anuncia o final de uma época. Dois homens, amigos inseparáveis na juventude, sentam-se a jantar depois de quarenta anos sem se verem. Um, passou muito tempo no Extremo Oriente, o outro, ao contrário, permaneceu na sua propriedade. Mas ambos viveram à espera deste momento, pois entre eles interpõe-se um segredo de uma força singular...

Os meus livros #19 - Smilla e os mistérios da neve (Peter Hoeg)



Sinopse 
Smilla Jaspersen tem a neve em muito melhor conta do que o amor. Ela é especialista das propriedades físicas do gelo e vive num mundo de números, ciência e memórias. E, agora, está convencida de que ocorreu um crime terrível cuja vítima é Isaiah, um rapaz de seis anos. Para além da amizade que os unia, Smilla e Isaiah tinham em comum o facto de pertencerem à pequena comunidade de esquimós a viver em Copenhaga. Quando as conclusões do inquérito oficial apontam para acidente, Smilla suspeita. E à medida que reúne informação sobre o caso, apercebe-se das suas sombrias ligações. De uma expedição secreta à Gronelândia a uma estranha conspiração que data da Segunda Guerra Mundial, muito parece estar por explicar. Pelo seu amigo e por si, ela embarca numa jornada arrepiante de mentiras, revelações e violência que a levará de volta ao mundo branco que em tempos deixou para trás e onde um segredo explosivo aguarda debaixo do gelo…

sábado, 10 de junho de 2017

Reler-me #31

Não sei viver no meio termo

Quando gosto, amo. Quando não gosto, odeio. Na minha vida, ou estou a subir, ou estou a descer, se me parece que o caminho é plano há demasiado tempo arranjo maneira de o tornar mais emocionante. Não sei fingir. Não sei dizer que sim quando é não, não sei dizer talvez quando a resposta é sim. Não viro para a direita quando quero seguir em frente, não volto para trás se acho que esse não é o caminho certo. Não faço fretes a ninguém. Não sei disfarçar estados de alma nem sentimentos. Não sei sorrir quando estou fodida, nem sei mentir, mesmo quando é preciso. Sou sempre sincera, mesmo quando saio prejudicada. Ou faço tudo, ou não faço nada. Sinto tudo o que faço e tudo o que digo, e só não faço ou digo tudo o que sinto porque sei que não posso. Quando gosto, amo. Quando não gosto, odeio. Não sei viver no meio termo. Possivelmente não sei nada da vida, mas vivo-a como se tivesse todas as certezas do mundo. 

Junho de 2015

Os meus livros #18 - O Rebate (J.Rentes de Carvalho)




Sinopse
Numa aldeia de Trás-os-Montes a chegada de um dos seus filhos emigrados para França, que vem endinheirado e casado com uma francesa provoca um verdadeiro cataclismo. Em França o Valadares, trabalhando na terra como um mouro, é premiado com a fortuna do patrão desde que case com a filha — moça doidivanas e descontrolada. Valadares e a mulher vêm a Portugal quando das tradicionais festas da aldeia. A partir deste momento a perturbação causada pelo comportamento de ambos — ele, através do dinheiro, buscando uma ingénua e primitiva glória no seu burgo; ela, usando a sedução e a provocação erótica na fauna masculina aldeã — desencadeia um rol de acontecimentos desgraçados que o rebate final expressa eloquentemente.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Estou tãaaaaooooo deprimida...

Em breve vou de viagem, mais uma daquelas grandes maluquices ao pedal que só uma doida varrida se lembra, mais uma daquelas merdas sobre as quais estou sempre a escrever e que já ninguém tem paciência para ler, mais uma daquelas tretas da autonomia total e de um grande desafio e do eu sou a melhor do mundo, ou pelo menos é assim que me vou sentir se conseguir chegar ao final e superar mais esta grande etapa na história das loucuras que eu invento para fazer. 
E se vais de viagem da forma que mais gostas porque raio estás tu deprimida, Loira? Perguntariam vocês, se andasse alguém por aí. É triste, é muito triste, é mesmo muito triste. COMO??????? Como é que uma pessoa que tem dezenas e dezenas de roupas de ciclismo consegue escolher somente duas para usar em cinco dias? Como é que alguém com o maior roupeiro da história das fashion ciclistas do mundo e arredores consegue decidir somente dois equipamentos no meio de tantos? COMO??????? COMO???????? Alguma alminha caridosa me consegue explicar? Já vi gente a cortar os pulsos ou a saltar da ponte por menos, por muito menos.

Os meus livros #17 - Antes de te conhecer (Lucie Whitehouse)



Sinopse

Hannah é uma mulher independente e determinada que não quer seguir os passos da sua mãe amargurada. Mas através de amigos, conhece certo verão, em Nova Iorque, Mark Reilly, e apaixona-se de tal modo que muda de ideias sobre o casamento. Agora vive na sua elegante casa em Londres, com um marido que adora e sente-se feliz. Mas quando ele não regressa de uma viagem de negócios aos EUA e as horas de espera se alongam em dias, Hannah começa a duvidar. Porque é que os colegas do marido acham que ele está em Paris, não NI? Porque não há registos seus no hotel? E quem é esta mulher que lhe anda a telefonar? Hannah começa a investigar a vida do marido e descobre coisas que a fazem duvidar de tudo o que julgava saber sobre ele. Da história de encantar que vive, é levada para um mundo de violência e medo. Mas será que os segredos de Mark se destinam a protegê-lo a ele ou a ela?

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Os meus livros #16 - As quatro vidas do Salgueiro (Shan Sa)

SINOPSE


Uma grande história de amor, uma travessia da China eterna, onde se cruzam fantasmas e guerreiros, as mulheres caminham com os pés enfaixados e os homens caçam com falcões.

Na China, o salgueiro-chorão simboliza a morte e o renascimento. Será que um ramo de salgueiro se pode transformar numa mulher condenada a perseguir o amor ao longo dos séculos? Além de contar a epopeia destas «almas errantes» em quatro períodos, correspondentes a outras tantas (e diferentes) Chinas – do bulício dos sonhos e poeira de Pequim, aos silêncios da Cidade Proibida, da era das cortesãs vestidas de seda à Revolução Cultural, das estepes cavalgadas pelos tártaros aos arrozais regados com o sangue dos Guardas Vermelhos –, Shan Sa põe em cena a paixão: dois seres que se procuram e se perdem. Tudo os separa, todas as tragédias de um povo antigo se interpõem entre ambos. No meio do tumulto, só mesmo um milagre os poderia unir... As Quatro Vidas do Salgueiro são uma história de amor que percorre os labirintos da memória chinesa, desde a dinastia Ming aos últimos sobressaltos do Império Chinês. Uma bela fábula com o sabor do chá amargo.

Reler-me #30

Nem sei como escrever isto. ÀS VEZES TER UM BLOG É UM BOCADO DEPRIMENTE. Pronto, já está.

No início do ano decidi aproveitar a minha paixão pela leitura e comecei a publicar todos os livros que leio, com a única intenção possível, a de partilhar. Houve um livro pelo qual me apaixonei e depois de o publicar várias foram as pessoas que me disseram que o tinham lido por minha culpa, minha tão grande culpa. Não consigo explicar o quanto isso me deixa feliz. Entre outros, recebi um e-mail de uma pessoa a dizer que tinha lido o meu post e que queria saber mais sobre o livro, trocamos algumas ideias. Passado uns dias novo e-mail a dizer que ia comprar o livro, mandava-me o link e pedia para eu certificar que sim, que aquele era de facto o livro. Eu disse que sim, que era o livro, mas mandei o link da editora e disse para comprar no site deles, uma vez que naquela semana o livro estava com 40% de desconto. A pessoa agradeceu-me imenso a atenção. Algum tempo depois escrevi um post sobre julgar os livros pela capa e voltei a falar do mesmo livro. Novo e-mail a dizer que agora sim, queria mesmo ler o livro. Passado uns dias novo e-mail a dizer que sim, que tinha comprado o livro e que ia tratar de o ler. Dias depois novo e-mail a dizer que sim, que já tinha começado a ler o livro e que estava a gostar bastante. A todos os e-mails respondi, sempre trocando ideias sobre o livro e fui pedindo para no final da leitura me dar uma opinião sobre o livro. Mais uns dias e novo e-mail para me dizer que sim, que já tinha lido mais umas páginas e que o livro era mesmo bom. Eu respondo ao e-mail mais uma vez, feliz da vida pela partilha e a troca de ideias sobre o livro e a pessoa volta a responder-me com a seguinte pergunta: "Tu leste-o?" SOCORRO!!!

Junho de 2015

quarta-feira, 7 de junho de 2017

O admirável mundo novo

A pessoa que vive no mesmo prédio que eu e que além de não responder ao meu simpático e sorridente "bom dia" ainda me olha de lado antes de virar a cara é a mesma que uns dias depois me pede amizade no facebook. 

Os meus livros #15 - Mizé . Antes galdéria do que normal e remediada (Ricardo Adolfo)





SINOPSE
Nos arredores de Lisboa, Mizé, a boa da vizinhança, tenta conciliar os sonhos de uma vida de estrela com a rotina entre o salão unissexo e o bairro social Esperança. Mas não é fácil. Ela quer mais, muito mais. E está preparada para usar tudo o que tem para o conseguir. Por outro lado, Palha, que largou as saias da mãe para casar com Mizé, só quer manter o pouco que lhe resta - a começar pelo emprego a vender batatas fritas. Numa noite de enganos, Palha descobre aquilo que nunca quis ver. Desesperado, parte em busca da inocência de Mizé e acaba por desenterrar a sua própria mentira.

terça-feira, 6 de junho de 2017

Reler-me #29

Sou movida a paixão

Apaixono-me todos os dias, uma vez por dia, várias vezes por dia, imensas vezes por dia. Apaixono-me pela mesma coisa diversas vezes. Apaixono-me por coisas novas a todo o instante. Apaixono-me a cada minuto. É à paixão que vou buscar toda a minha força, toda a minha energia, toda a minha alegria, toda a minha forma de ser. Sou movida a paixão. Sem paixão nada me faz sentido, nada me é possível. Não sei viver senão apaixonada. 

Maio de 2016

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Loira, a conquistadora (Este post contém imagens chocantes, não aconselhadas aos mais sensíveis)

Venho de muito longe e atravesso montanhas para lá chegar, olho em frente e vejo o cume que tenho de conquistar, talvez seja ali o topo do mundo, ou o topo do meu mundo, olho a montanha de frente e respiro fundo, dou a primeira pedalada com o respeito e a devolução que ela merece, que todas as montanhas merecem, vou conquistando lentamente pedaços dela, cada vez mais perto do final, mas o final está sempre mais longe do que aquilo que parece. Chegar ao topo da montanha é uma sensação incrível, conquistar este chão é sempre muito especial, não é só mais um cume, é o infinito que alcançamos, é o mundo aos nossos pés. Fico um pouco por lá a perder-me na paisagem e vou embora, não sem antes olhar para trás várias vezes, orgulhosa de mim, era ali que eu estava, foi aquele cone impressionante no meio da paisagem que eu conquistei, que eu consegui alcançar, é dali que eu venho, do topo da grande montanha, do topo do mundo. Foi só da minha energia e da minha coragem que eu precisei para lá chegar. Desviem-se que eu tenho infinitas montanhas para alcançar. Desviem-se que eu vou conquistar o mundo.





*Monte Farinha, Senhora da Graça

Os meus livros #14 - A Valsa do Adeus (Milan Kundera)



SINOPSE

Numas termas, sete pessoas em busca da felicidade envolvem-se e afastam-se ao ritmo de uma «valsa» orquestrada por Milan Kundera com o seu habitual humor. Ruzena, uma bela enfermeira, Klima, um músico de jazz, Jakub, antigo militante e vítima das depurações, o doutor Skreta, diretor dos serviços de ginecologia das termas e Bertlef, o americano, são algumas das personagens que durante cinco dias se debatem nesta Valsa do Adeus, construída com o rigor de um romance clássico e fruto de uma rara capacidade de síntese e do forte poder inventivo, que caracterizam as obras do autor.

«Se queremos compreender o mundo temos que abarcá-lo em toda a sua complexidade, na sua essencial ambiguidade» Milan Kundera, sobre A Valsa do Adeus

domingo, 4 de junho de 2017

Reler-me #28

Sempre sonhei...

Dou por mim demasiadas vezes a dizer um sempre sonhei. Sempre sonhei fazer isto. Sempre sonhei vir aqui. Sempre sonhei percorrer este caminho. Sempre sonhei alcançar este cume. Sempre sonhei atingir este objectivo. Mas é mentira, nem sempre sonhei. Acontece que os sonhos nascem dentro de mim com tanta força que me parece que sempre ali estiveram, mesmo quando acabo de os descobrir. Os sonhos multiplicam-se em mim e não há como os fazer parar. Ainda não realizei um sonho de sempre e já me nasceu na alma e no coração um novo sonho, daqueles tão intensos que eu própria acredito que sempre os sonhei.

Maio de 2016

Os meus livros #13 - A Morte de Ivan Ilitch (Lev Tolstoi)







SINOPSE

«Este livro tão breve, uma das maiores obras-primas do espírito humano, tem sido, desde a sua publicação, um motivo de controvérsia para a crítica: trata-se de uma obra sobre a morte ou de uma obra que nega a morte?»
António Lobo Antunes

sábado, 3 de junho de 2017

Reler-me #27

Uma questão de sinfonia

Por fora posso ser Dance Music, Haevy Metal, House Music, posso ser Hip Hop, Samba, Reggae, Rap, Popular, posso ser Punk, posso ser Funk, posso ser Pop, posso ser Rock, posso até ser Kuduro ou Lambada. Por dentro toda eu sou Jazz, toda eu sou Fado. Por fora posso dançar qualquer música que toquem para mim, toda eu sou motivacional. Mas para ouvir a minha música interior tenho de sentar-me confortavelmente numa sala a meia luz, fechar os olhos e sonhar. Tudo uma questão de sinfonia.

Maio de 2014

Os meus livros #12 - O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá, uma história de amor (Jorge Amado)






SINOPSE

Jorge Amado escreveu O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá em 1948, para o seu filho João Jorge, quando este completou um ano de idade. O texto andou perdido, e só em 1978 conheceu a sua primeira edição, depoi de ter sido recuperado pelo filho e levado a Carybé para ilustrar. Com ilustrações belíssimas, para um belíssimo texto, a história de amor do Gato Malhado e da Andorinha Sinhá continua a correr mundo fazendo as delícias de leitores de todas as idades.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Parece que criei um monstro, não foi tio Pipoco?

Andava eu na minha vidinha quando me lembrei da Blogosfera dos tempos antigos, porque parecendo que não já lá vão 7 anos de Blog e com isto já eu estou a chegar ao tempo em que no meu tempo é que era. Parece que inspirei o Tio Pipoco a contradizer-me e sobre isso só tenho a dizer em meu abono que num outro tempo já o inspirei a fazer O Caminho e até já tentei inspirá-lo a usar meias como deve de ser. Criei um monstro, parece-me, porque isto de tentar reencontrar a Blogosfera perdida nunca mais parou, felizmente. As saudades que eu já tinha deste movimento e de me divertir a sério com isto dos blogs? 

Dada a explicação informo que ganhei um selo, fui nomeada, ou condenada, ainda não sei bem, pela Be e pela Susana, um selo em bom, exactamente igual aos selos dos tempos antigos, lindíssimo, como podem ver, que orgulho, obrigada miúdas. Posto isto, passo a cumprir as regras do desfio:

Se eu tivesse um Blog mesmo em bom teria de ser o Blog do Tio Pipoco, porque no fundo sou uma romântica e parecendo que não é o Tio que nos une, que cria movimentos e que afinal, faz com que a Blogosfera moderna seja ainda um bocadinho como a Blogosfera antiga, porque eu continuo a acreditar que isto não são só Blogs e apesar de ter cada vez menos tempo para isto tenho pessoas desse lado, não números e estatísticas. 

Sintam-se todos condenados a levar este lindo selo para os vossos Blogs em Bom, não nomeio porque nunca gostei de cumprir regras, sempre gostei de ser a rebelde do grupo.

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Felizes andam os passarinhos

Que me acordam dia após dia com a mais bela das sinfonias, que me inundam o quarto e a casa de notas musicais e de alegria, que cantam como não me lembro de ouvir, que despertam diariamente com as mais belas canções e com os primeiros raios de sol e de luz. Felizes andam os passarinhos. E eu, apesar de por culpa deles andar cheia de sono, fico feliz com eles, porque para infelizes e zangadas bastam as pessoas. Felizes andam os passarinhos. E feliz ando eu, que acordo de sorriso nos lábios de tanto os ouvir.

quarta-feira, 31 de maio de 2017

domingo, 28 de maio de 2017

Reler-me #26

15 de Abril - Dia Internacional do Ciclista (dizem)

Alguns sites afirmam ser hoje o dia internacional do ciclista. Se considerarmos o ciclismo como um desporto de corrida de bicicletas cujo objectivo é chegar primeiro a uma meta ou cumprir determinado percurso em menor tempo possível, então eu não sou ciclista e não percebo nada disto. O que eu gosto mesmo é de pedalar, de passear de bicicleta, de me divertir, de viajar, de levar com o vento na cara e a emoção na alma, de despentear o cabelo com o capacete, de libertar toda a adrenalina possível numa descida técnica no meio do monte, de subir, subir, subir e atingir um topo que visto de cá de baixo nos parece inalcançável. O que eu gosto mesmo é de coleccionar sorrisos, gargalhadas, percursos, histórias, amigos e horas muito felizes. O que eu gosto mesmo é de parar para olhar o horizonte, é de sentir o sol, a chuva, o calor intenso e o frio gélido no rosto. O que eu gosto mesmo é de desafiar os meus limites, de acreditar que consigo tudo e de superar as minhas metas interiores. Não sei se sou ciclista, se sou cicloturista ou o que raio sou, só sei que isto é bom, que pedalar está-me no corpo, está-me na alma e que mesmo não ligando nada a isto, dos dias internacionais de tudo e mais alguma coisa, hoje é bem capaz de ser o meu dia.

Abril de 2015

sábado, 27 de maio de 2017

Reler-me #25

Há dias... e dias...

Há dias em que acordo a mais bonita, que caminho com segurança e com ar de quem domina o mundo e sabe exactamente o que quer e para onde vai. Há dias em que acordo completamente perdida e até os simples gestos rotineiros me parecem mecânicos, como se fosse difícil o simples acto de respirar. Há dias em que acordo magra e gira, em que escolhi a roupa e a cor de sombras mais fashion dos últimos tempos e os meus saltos me fazem sentir a Super Mulher. Há dias em que acordo gorda, quase obesa, em que nada do que tenho para vestir me serve ou me fica razoavelmente bem. Há dias em que acordo bem disposta, canto durante todo o trajecto de casa ao trabalho e me apetece beijar e abraçar toda a gente só porque a vida bela. Há dias em que o simples facto de estar a chover me faz sentir deprimida e infeliz. Há dias em que tenho as maiores certezas e a toda a segurança do mundo. Há dias em que todas as dúvidas me povoam a mente. Há dias em que choro sem motivos. Há dias em que sorrio confiante e convincente, mesmo só tendo razões para chorar. Há dias que tenho tanta força que sou capaz de mover multidões. Há dias em que sou fraca, como uma ave ferida. Há dias em que o simples nascer do sol ou pintar as unhas me faz feliz. Há dias em que nada me consegue tirar esta ansiedade do peito. Há dias em que me encho de esperança. Há dias em que o mundo acaba amanhã, ou já daqui a pouco. Há dias em que amo. Há dias em que odeio. Há dias que sim. Há dias que não. Inconstante? Não, simplesmente Mulher, como todas as outras.

Abril de 2012

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Em busca da Blogosfera perdida

A Blogosfera já não é o que era. É certo que eu também já não sou o que era e que a Blogosfera hoje em dia só me serve para escrever e para visitar meia dúzia de Blogs dos quais não abdico ou por causa do autor ou por causa da sua escrita. Ainda assim, a Blogosfera era um sítio certo e seguro para mim, a Blogosfera era um porto de abrigo, a Blogosfera era o local que eu podia abandonar porque ia estar sempre lá para mim, a Blogosfera era o recanto que nunca mudava e que me acolhia sempre da mesma forma, a Blogosfera era aquela amiga que eu podia estar longe durante muito tempo e que aquando do reencontro nada tinha mudado nela nem na nossa relação. O que é que aconteceu entretanto? A Blogosfera já não é o que era. Onde é que estão os "concordo contigo" incondicionais? Onde é que estão os "lol"? Onde é que estão os intermináveis smiles? Onde é que estão os "tens toda a razão"? Onde é que estão os "Eu poderia ter escrito isto"? Onde é que estão os "abracinho amiga"? Onde é que estão os "se me seguires eu também te sigo"? Onde é que estão os desafios sem lógica nenhuma? Onde é que estão os selos de Blog mais foleiro de todo o sempre? Mas é pior... muito pior... Onde é que estão as publicidades manhosas com as quais valia a pena gozar? Onde é que estão os outfits horríveis para a gente se rir? Onde é que estão aquelas cores de verniz que só davam vontade de vomitar? Onde é que estão os sapatos que nunca, jamais, alguém no seu perfeito juízo conseguiria usar? Onde é que estão as amigas que quando se zangavam faziam um escândalo de dar vergonha alheia? Onde é que estão os posts sobre a actualidade iguais em todos os Blogs, dia após dia? Mas é pior... muito pior... Onde é que estão os bons Blogs? Onde é que estão os Blogs interessantes? Onde é que estão os Blogs realmente bem escritos? Onde é que estão os Blogs que nos inspiram? Onde é que estão os Blogs que nos emocionam? Onde é que estão os Blogs que nos fazem chorar de tanto rir? Onde é que estão os autores por os quais nos "apaixonamos"? Onde? Onde é que está a Blogosfera tal e qual eu a conheci? É só impressão minha ou esta merda agora é uma seca do caralho?

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Passadiços do Paiva

Os Passadiços do Paiva são um local encantado que eu queria conhecer há muito e que me apaixonaram. Contornam, sobem e descem montanhas que seriam de acesso impossível às pessoas em geral, só os praticantes de desportos no rio e poucos mais teriam o privilégio de conhecer toda aquela imensidão se não tivessem construído os Passadiços. Não sei de quem foi a ideia, mas deixo-lhe aqui o meu aplauso. A grande subida à montanha e a descida são de cortar a respiração até aos que estão habituados a conquistar e a viver nas montanhas. As paisagens são deslumbrantes e toda a envolvência de montanhas, rio, verde, plantas e animais é fascinante. Escapei ao inconveniente do possível excesso de pessoas por ter ido até lá num dia útil, aproveitando desta forma da melhor maneira possível o feriado municipal da minha cidade. Poderia deixar aqui dezenas de imagens fascinantes, mas acho melhor dizer-vos para irem. Vão que vale muito a pena conhecer este bocadinho de mundo tão único.  


http://www.passadicosdopaiva.pt/

E se eu...

Tivesse acabado de escrever o meu primeiro post num Blog?

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Nunca pensei que existissem tantos assassinos por metro quadrado

Devo começar por dizer que nunca gostei de generalizar as pessoas e que sei bem que este tema está muito longe de ser consensual. Ainda assim é preciso escrever sobre isto, é preciso não calar sobre isto.
Sempre fui uma mulher da montanha, dos trilhos, da terra, das pedras, das raízes, do mato, da lama, das subidas técnicas e das descidas radicais. Sempre fui uma aficionada por todo-o-terreno. Acontece que recentemente descobri uma nova paixão, o alcatrão. E se as minhas poucas experiências na estrada já me faziam ver um mundo ao contrário, agora que faço parte dela e que quero conquistar cada vez mais quilómetros consigo ver um mundo completamente assustador.
Nunca pensei que existissem tantos assassinos na estrada. São pessoas aparentemente normais mas que têm nas mãos uma arma mortal que lhes é dada sem grandes dificuldades, mediante um pagamento irrisório e sem qualquer teste psicológico, que diga-se de passagem, era mais que necessário, há imensa gente que não tem capacidade mental para possuir uma carta de condução.
Escrevo olhando para a estrada dos dois pontos de vista, como condutora e como ciclista, mas acima de tudo como pessoa, porque como comecei por dizer, nunca gostei de generalizar e os condutores não são todos iguais, assim como os ciclistas não o são. Como pessoa erro, já cometi muitas infracções ao volante de um carro e como ciclista também erro, já fiz o mesmo em cima da minha bicicleta. Actualmente, como ciclista, estou mais atenta do que nunca e tento não só cumprir todas as regras como olhar para cada carro como um atentado à minha vida e por isso defender-me constantemente. Ainda assim são carros que se metem à minha frente numa rotunda e que me obrigam a travagens perigosas e quase impossíveis quando eu tenho prioridade, são carros que não param nos sinais de stop nem cedem prioridade em cruzamentos quando têm que o fazer, são carros que além de não respeitar a distância de segurança de um metro e meio ainda me fazem tangentes como se isso lhes desse imenso prazer, são carros com atrasados mentais dentro que buzinam e esbracejam só porque estamos ali, são carros com condutores que fazem de conta que não nos vêm e/ou que não existimos, são carros que perante outros que nos cedem prioridade sobem passeios, gritam, barafustam e tentam abalroar-nos propositadamente. São carros com loucos dentro. São carros com gente que olha para nós e vê somente uma bicicleta, roupas de licra coloridas, luvas, um capacete e uns sapatos de encaixe fluorescentes, são carros com gente como nós, mas sem a capacidade de perceber que em cima de uma bicicleta está uma mãe de alguém, está um pai de alguém, estão filhos, estão irmãos, tios, primos, amigos, vizinhos, estão pessoas, estão vidas. E que existam pessoas que estejam de mal com o mundo eu até compreendo, não fossem as minhas grandes paixões e esta forma de olhar para a vida eu também acharia que o universo é uma merda, se eu só tivesse pressa para chegar a sítios onde me obrigam a estar e só mexesse um rabo gordo, mole ou cheio de celulite para entrar e sair de um carro, possivelmente também estaria zangada com tudo e todos, principalmente com as pessoas felizes e apaixonadas por algo que as faz ver a vida mais colorida, mas por muito zangada e de mal com o mundo que pudesse estar tenho a certeza que nunca isso me levaria a colocar a vida de outros em risco.
Por hoje é só. Termino por onde comecei, nunca gostei de generalizar. Resta-me dizer que acidentes são uma coisa, tentativas de os provocar propositadamente para ferir alguém sem defesa são outra.

sábado, 20 de maio de 2017

Desculpa Salvador

Mas não se pode amar pelos dois. O amor tem de ser único, tem de ser partilha, tem de ser mútuo, tem de ser recíproco, tem de ser em comum, tem de ser união. O amor tem de ser a dois. O amor não se aprende nem chega devagarinho, o amor acontece, o amor é intenso, o amor é arrebatador, o amor é surpreendente, o amor é extasiante. Desculpa Salvador, mas não se ama sozinho, não se pode amar pelos dois. O amor só faz sentido a dois. O amor só faz sentido partilhado. O amor só faz sentido gritado ao mundo na primeira pessoa do plural. 





Obrigada Salvador. Obrigada Luísa. Não se pode amar pelos dois, mas pode cantar-se por uma nação inteira. Parabéns Salvador. Parabéns Luísa. 

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Condenadas à nascença

Passaram mais de dois anos desde que comprei vasos pela primeira vez na minha vida, primeira e última, diga-se, que não tenciono meter-me em mais aventuras destas. Desde logo senti o peso da responsabilidade de manter as flores vivas. Eu, que sempre fui apaixonada pela natureza, tinha a partir desse dia um bocadinho dela dentro de casa, dois vasinhos pequenos e em forma de bicicleta, com umas lindas e coloridas flores, capazes de me fazer sentir adulta e responsável, que felicidade. As flores morreram ainda não tinha passado uma semana e eu, profundamente desiludida, tinha a certeza que a culpa era delas e não minha, ainda assim decidi não arriscar e comprei cactos. Cactos e mais cactos, porque me morreram uns atrás dos outros, os primeiros possivelmente afogados entre o meu medo de os deixar morrer e o facto de não fazer a mais pequena ideia de como cuidar deles, os que se seguiram possivelmente à sede, entre a minha certeza de não saber cuidar deles e o esquecimento da sua existência. Cactos e mais cactos, de todas as formas, cores e feitios morreram por minha culpa, minha tão grande culpa. 
Ontem decidi mudar, comprei duas lindas roseiras para os meus vasinhos e fui para casa feliz, disposta a dedicar-lhes toda a minha atenção, mas agora estou em pânico, não sei o que lhes fazer, não sei como cuidar delas, não sei como conseguir que sobrevivam no meu mundo. Paz à sua alma, estão condenadas à nascença, temo que na próxima semana seja necessário ir comprar tulipas, ou atirar os vasos em forma de bicicleta pela janela.
Muito prazer, eu sou a Loira e o meu passatempo preferido é assassinar plantas. Socorro. 

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Os Deuses devem estar loucos

Perante a frase que se impunha - é proibido circular de bicicleta - respirei fundo e reservei os bilhetes.

terça-feira, 9 de maio de 2017

Loira on the road

Queridas pessoas que me lêem, tenho a informar que a partir de agora além de andar por aí a conquistar trilhos ao pedal também vou andar por aí a conquistar quilómetros em estrada, fujam daqui porque eu vou ficar cada vez mais insuportável.
Queridas montanhas, preparem-se porque eu agora ataco de todos os lados e tenho intenção de conquistar cada vez mais cumes.
Queridos condutores, por favor, respeitem um metro e meio de segurança de distância quando me virem, eu juro que já sou perigosa quanto baste.
 

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Isto é bem capaz de ser felicidade

Dupliquei o objecto da minha paixão, em vez de uma agora são duas, as mesmas cores, a mesma dedicação, a mesma espera pela transformação que eu inventei e a mesma ansiedade pelo resultado final. Agora descansam, lindas, as mais giras do mundo e arredores, lado a lado, olho-as com orgulho e com paixão, olho-as novamente e suspiro por elas, minhas. Isto é bem capaz de ser felicidade.

Do Pedal para o Blog #7



domingo, 7 de maio de 2017

Reler-me #24

Vou sempre com demasiada sede ao pote

Estou sempre com sede e tento matá-la com toda a ganância do mundo. Sinto uma secura indescritível, uma vontade incontrolável. Às vezes entorno a bebida, molho o que não devo, quase me afogo ao derramar o tão esperado líquido. Bebo como quem está perdido no deserto há dias e consegue água pela primeira vez. Bebo como quem se excedeu mortalmente no salgado. Absorvo, consumo, trago, engulo, sugo para dentro de mim como se estivesse prestes a ficar desidratada. Não sei beber de outra forma, não sei ser diferente. Bebo os bocados de vida com um desejo ardente que nunca consigo tranquilizar.

Março de 2016

Reler-me #23

Loira, a incentivadora.

Quando comecei a andar de bicicleta inscrevi-me numa maratona de 40 Km, foi a minha primeira vez, assim que me inscrevi mil vozes se ergueram para me dizer que eu estava maluca, que 40 km faziam as pessoas experientes, que eu não devia ir, que eu não conseguia. Consegui. Pouco mais de um mês depois marquei a minha primeira viagem de bicicleta e logo mil vozes se ergueram para me dizer que 200 km eram impossíveis para mim, que eu estava maluca, fizeram-se apostas porque era uma realidade, eu não conseguia. Consegui. Meio ano depois quis aventurar-me a primeira vez e marquei a minha tão sonhada viagem pelo Caminho de Santiago, logo mil vozes se ergueram para me falar das dificuldades, para me falar da minha falta de preparação física, para me dizer que eu não conseguia. Consegui. O mais grave aconteceu quando em 2013 comecei a planear as minhas férias e comecei a preparar-me para O Caminho Francês de Santiago, mil vozes se ergueram para me dizer que agora sim, eu estava completamente maluca. 1000 Km de bicicleta? Impossível. E com alforges? Em autonomia total? E se me acontecesse alguma coisa? Que faria eu? Dormir em albergues? Partir de manhã de uma cidade sem saber exactamente onde se vai dormir à noite? E se não arranjasse local para pernoitar? Dormia na rua? E para chegar lá, tinha de levar a bicicleta desmontada? E para a montar? Se corresse alguma coisa mal? E as roupas? Tinha de levar pouquíssimas coisas, tinha de lavar todos os dias a roupa que queria usar dois dias depois? E se tivesse uma avaria na bicicleta? E se me perdesse? E se fosse assaltada? E se caísse? E se...? E se...? E se...? Eu consegui.

De cada vez que me quis aventurar se tivesse ouvido as mil vozes que se ergueram para me dizer que eu não conseguia, que eu não era capaz, que era demasiado perigoso, que eu estava maluca, que não compreendiam como eu ousava sequer sonhar com uma coisa assim, ainda que eu nunca tenha pedido opinião a nenhuma dessas pessoas que erguiam as vozes para me dizer que era impossível, se as tivesse ouvido, nunca teria saído de casa, nunca teria arriscado, nunca teria feito aquela que foi a viagem da minha vida. Estaria até hoje a andar de bicicleta à volta de casa como se fosse um ratinho amedrontado.

E se eu contrariei mil vozes negativas tantas vezes, e se eu pretendo continuar a contrariar quantas vozes, quantas vezes, se erguerem para me aclamarem com o impossível, quem sou eu para fazer o mesmo? Eu apoio as pessoas em tudo o que elas me dizem que querem fazer, eu digo sempre que sim, que conseguem, que são capazes, que façam e que aconteçam. Eu digo "força", faço um grande sorriso e ofereço ajuda para o que precisarem. Porque se eu acredito do fundo do coração que sou capaz de tudo, acredito de igual forma que os outros também são. 

E às vezes os outros só precisam de ouvir uma voz positiva no meio das mil vozes negativas.

Março de 2015

sábado, 6 de maio de 2017

Reler-me #22

Estou cada vez mais transparente...

Estou cada vez mais transparente. Durante muitos anos consegui viver sempre de sorriso no rosto e piada fácil para todos. Para ver algo mais que isso era necessário olhar-me bem lá no fundo dos olhos e tirar-me uma espécie de radiografia à alma de diagnóstico muito vago para a maioria dos que tentavam. Estou cada vez mais transparente. Não sei fingir estados de espírito e emoções. Se estou chateada faço uma cara de chateada e fica-me vincada uma ruga no meio dos olhos, mesmo em cima do nariz, se estou irritada, cansada, ansiosa, as minhas expressões mostram cada vez mais as minhas emoções. Se estou perdida fico com um ar totalmente perdido. Estou cada vez mais transparente. O rosto desnuda-me também os sentimentos. Quando não gosto, não gosto, não consigo olhar nos olhos, não consigo ficar atenta ao que me dizem, não me interessa e ponto final, fico com ar de quem está no mundo da lua. Quando gosto confesso-me, brilham-me os olhos, ilumina-se-me o sorriso e expresso-me com o coração. Estou cada vez mais transparente, mas às vezes precisava ser um bocadinho actriz neste palco que é a vida, só às vezes...

Março de 2012

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Bloqueio de leitora

Já não leio. Ou já não leio como lia. Meia dúzia de páginas cansam-me profundamente. Quero muito voltar a perder-me nas páginas de um livro, mas por muito que tente não estou a conseguir. Em vez de cerca de dez livros por mês tenho lido um ou dois, com algum esforço e força de vontade de tentar voltar aquilo que era. Já não leio. Ou já não leio como lia. Ainda assim continuo a carregar um livro sagradamente comigo, em casa levo-o atrás de mim para todo o lado e não saio para a rua sem o meter na mala, como se abandoná-lo fosse perder a esperança de voltar a perder-me na minha grande paixão. Já não leio. Ou já não leio como lia. Ainda assim continuo a carregar o peso dos livros comigo, talvez para provar a mim mesma que não me esqueci dos livros, talvez para provar aos livros que não me esqueci de mim.